O KOSPI subiu oito por cento em uma sessão, Tóquio comemorou, Hong Kong respirou aliviada, e a manchete unânime de Singapura a São Paulo foi a mesma: a Nvidia entregou números fortes e a Samsung fechou contrato de fornecimento de memória. Pronto, está dada a senha do dia. Bilhões de dólares mudaram de mão em algumas horas porque um trimestre veio acima do consenso e dois conglomerados apertaram as mãos. Quer dizer, o investidor coreano médio, aquele sujeito que paga imposto sobre o salário para sustentar o aparato regulatório de Seul, acordou oito por cento mais rico sem produzir absolutamente nada de novo entre ontem e hoje. Olha que coisa curiosa.

O que se vê é a euforia. O que não se vê é a coreografia montada por trás. Toda essa máquina de inteligência artificial que move o índice de Taiwan, sustenta a bolsa americana e agora puxa a Coreia é financiada, em última instância, por dinheiro barato que saiu da impressora dos bancos centrais entre 2020 e 2024, e que continua reciclado dentro de um circuito fechado entre meia dúzia de gigantes. Nvidia vende para hyperscalers, hyperscalers compram capacidade que vão alugar para startups que estão queimando capital de risco que foi alocado porque os juros estavam no chão. A Samsung agora entra nessa cadeia como fornecedora de memória de alta largura de banda. Tudo lindo, tudo redondo, tudo dependente do mesmo combustível artificial.

Os economistas de banco vão escrever, com aquela cara séria de quem domina o assunto, que isso é a economia digital criando valor. Me diz uma coisa: por que então os ganhos se concentram em sete empresas americanas, três fundições asiáticas e meia dúzia de fundos que detinham as ações antes do anúncio? Se fosse mercado livre de verdade, com capital sendo alocado por preços não distorcidos, a recompensa apareceria espalhada. Aparece concentrada porque a alocação está distorcida na origem. Quem entendeu o jogo da liquidez fácil há cinco anos pegou o cheque. Quem ficou de fora aplaude na arquibancada e financia a festa via fundo de pensão.

O caso da Samsung é particularmente saboroso. A empresa passou os últimos dois anos perdendo terreno justamente em memória HBM, ficou atrás da SK Hynix, e agora ressurge no jogo amarrando contrato com a fornecedora dominante de GPU. O governo coreano, claro, vai correr para creditar a si mesmo o feito, falar de política industrial bem-sucedida, de sinergia entre Estado e iniciativa privada. É a velha cantilena. Empresa que dá certo é mérito do planejamento; empresa que quebra é falha do mercado. Heads I win, tails you lose, e a conta fica com o contribuinte coreano que financia o ecossistema de subsídios para semicondutores enquanto a margem operacional fica nos acionistas.

Quando a próxima correção chegar, e ela vai chegar, porque toda expansão fabricada deste tipo termina invariavelmente em ajuste violento, esses mesmos analistas que hoje aplaudem o KOSPI vão pedir socorro ao Banco da Coreia, vão exigir que o Federal Reserve corte juros, vão demandar pacote de estímulo no Japão. E o ciclo recomeça. É a engenharia mais elegante de privatização de lucros e socialização de prejuízos já inventada, com a vantagem adicional de que ninguém precisa assinar nada, basta apertar Enter no terminal da Bloomberg. O mercado faz o trabalho sujo de redistribuir riqueza para cima e ainda recebe aplauso por isso.

Bolsa em alta não é sinônimo de país mais rico. É sinônimo de ativos reavaliados, e reavaliação não é criação. Riqueza de verdade se mede em poupança poupada, em capital formado, em produtividade que sobrevive ao próximo aperto monetário. O resto é fogo de artifício pago com inflação futura, e a conta sempre, sempre, chega no salário de quem nunca chegou perto de comprar uma ação da Nvidia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.