A Samsung anunciou um bônus generoso para seus engenheiros e operários depois que a divisão de semicondutores, embalada pela febre da inteligência artificial, registrou lucros que fariam corar qualquer relatório trimestral dos últimos cinco anos. A imprensa coreana e os caciques sindicais imediatamente transformaram o gesto em manifesto, como se a empresa tivesse descoberto a virtude do compartilhamento depois de séculos de ganância. Na verdade, o que se viu foi cálculo frio de retenção de talento numa guerra global por engenheiros de chip, e nada mais que isso. Mas a narrativa que se cristaliza é outra, e é nessa narrativa que mora o problema.

O debate que se abre na Coreia do Sul, e que rapidamente será importado por colunistas tupiniquins de plantão, é o velho disco arranhado da divisão dos ganhos da produtividade. Quando uma máquina ou um algoritmo multiplica o que um trabalhador produz, surge logo o coro pedindo que o ganho seja repartido por decreto, por lei, por imposição estatal. Quer dizer, ninguém pergunta quem assumiu o risco, quem investiu bilhões em pesquisa por décadas, quem aguentou os anos de prejuízo nas fábricas de memória quando o ciclo virou contra. O lucro aparece e, magicamente, deixa de ter dono. Vira patrimônio coletivo de quem nunca arriscou um centavo.

Olha, a inteligência artificial não caiu do céu. Ela é fruto de décadas de capital paciente, de acionistas que reinvestiram dividendos, de engenheiros pagos a peso de ouro justamente porque o mercado precificou sua escassez. Quando se propõe dividir os frutos por planilha governamental, o que se está propondo, no fundo, é destruir o sinal que faz o sistema funcionar. Se o ganho extraordinário for sempre confiscado ou redistribuído por comitê, o investimento extraordinário simplesmente não acontece da próxima vez. E aí ninguém ganha bônus, porque não há mais lucro a dividir. É a velha história da galinha dos ovos de ouro, contada de novo por gente que finge nunca ter ouvido a fábula.

O mais cômico é o silêncio sobre o outro lado da equação. A Coreia do Sul é o país onde o banco central, em conluio com o governo, mantém política monetária frouxa, infla o won, distorce preços relativos e empurra capital para os conglomerados favoritos do regime. Os chaebols, esses polvos empresariais com tentáculos no Estado, são os maiores beneficiários dessa engenharia. Boa parte do lucro celebrado agora vem dessa distorção monetária, não da virtude produtiva pura. Mas claro, ninguém vai pedir que o Banco da Coreia divida o senhoriagem com o operário da linha de montagem. Esse tipo de divisão de ganhos é tabu, porque envolveria admitir que o sistema inteiro é uma operação de transferência de riqueza dos poupadores para os bem conectados.

E aqui mora a piada que ninguém conta. Enquanto se discute se o engenheiro merece dois ou três meses de salário extra, o consumidor pobre da periferia de Seul paga inflação importada, juros artificialmente comprimidos que destroem sua poupança, e impostos que financiam subsídios à própria Samsung. O bônus generoso é, em parte, devolução envergonhada de algo que foi tirado de muita gente que jamais verá um décimo daquilo. Mas como o que se vê é o cheque na conta do funcionário sortudo, e o que não se vê é a fatura paga em silêncio por milhões de coreanos comuns, todo mundo aplaude. A janela quebrada vira motor de progresso na cabeça de quem nunca aprendeu a olhar para os dois lados do balcão.

O bônus da Samsung não é revolução, não é justiça social, não é novo capitalismo. É marketing de retenção embrulhado em retórica progressista, num país onde a relação promíscua entre Estado e grandes empresas produz tanto os lucros extraordinários quanto a ilusão de que dividi-los por lei seria sinal de civilização. A inteligência artificial vai mesmo redistribuir riqueza, mas não do jeito que os comentaristas imaginam. Ela vai recompensar quem arriscou e punir quem ficou esperando o governo legislar sua fatia. E nenhuma lei coreana, nem brasileira, vai mudar essa aritmética antiga como o próprio comércio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.