A Booz Allen Hamilton, aquela consultoria que vive grudada como carrapato nas costas do governo federal americano, divulgou lucro por ação acima do consenso dos analistas no quarto trimestre fiscal de 2026, e a manchete sai como se fosse mérito empresarial puro. Quer dizer, mérito de quem exatamente? A empresa tira mais de noventa por cento da sua receita de contratos com o Pentágono, com agências de inteligência, com a NASA, com o Departamento de Segurança Interna. Não é uma empresa que vende ao consumidor e ganha porque acertou a oferta. É uma empresa que vende ao Tio Sam e ganha porque o Tio Sam tem orçamento ilimitado garantido pela impressora monetária do Federal Reserve e pela paciência infinita do contribuinte.
Olha, há uma diferença ontológica entre ganhar dinheiro convencendo milhões de pessoas a abrir voluntariamente a carteira e ganhar dinheiro convencendo um burocrata em Washington a assinar um contrato de bilhões. No primeiro caso, você descobriu algo que as pessoas querem. No segundo, você descobriu algo que ninguém quer mas que todo mundo é obrigado a pagar. O lucro de uma é virtude econômica. O lucro da outra é transferência. E o noticiário financeiro, com aquela neutralidade fingida que esconde devoção ao establishment, trata as duas como se fossem a mesma coisa.
Siga o caminho do dinheiro e o teatro fica visível. O Congresso aprova um orçamento de defesa monstruoso, financiado metade por impostos e metade por dívida que será paga em inflação futura. Esse dinheiro entra no Pentágono, que terceiriza estudos, modernizações de sistemas, análises estratégicas, transformações digitais, tudo aquilo que servidor público nenhum quer fazer porque não tem incentivo nem capacidade. A Booz Allen aparece com powerpoints elegantes, ex-generais no conselho, ex-secretários de defesa como vice-presidentes, e fatura. O ciclo se fecha quando esses mesmos consultores voltam para o governo em administrações futuras, contratam a antiga empresa, e a porta giratória continua girando azeitada com dinheiro alheio.
O que se vê no relatório trimestral é a margem operacional saudável, o backlog recorde, o crescimento orgânico de dois dígitos. O que não se vê é o pequeno empresário do Texas que pagou imposto adicional para financiar um estudo de quinhentas páginas que vai dormir numa gaveta. O que não se vê é o capital que poderia ter virado fábrica, software de mercado, pesquisa privada com risco real, e em vez disso virou hora de consultor júnior cobrada a trezentos dólares fazendo slide para coronel. Cada vez que essas consultorias batem estimativa, o jornal econômico celebra. Deveria fazer luto, porque significa que o aparelho estatal ficou mais gordo um trimestre a mais.
Existe ainda a questão moral que o terno do executivo da Booz Allen esconde bem. Quando uma empresa depende de um único cliente, e esse cliente tem o monopólio legal da violência e da emissão monetária, a relação deixa de ser comercial e vira simbiótica. A empresa não pode contrariar o cliente, o cliente não pode auditar com rigor o fornecedor que conhece todos os seus segredos, e o cidadão que paga a conta nem sabe que existe um contrato. Isso não é livre mercado. Isso é feudalismo corporativo com terminologia de business school, e quanto mais a empresa cresce, mais o feudo se consolida.
O resultado trimestral é bom para os acionistas, ótimo para os executivos com pacote de stock options, esplêndido para os fundos de pensão que carregam o papel. Para todo o resto, é apenas mais uma transferência silenciosa do produtor para o intermediário do Estado, vestida de excelência operacional. Da próxima vez que ler "supera expectativas" numa consultoria do governo, traduza mentalmente: o imposto continua subindo e alguém em McLean, Virgínia, está abrindo um vinho caro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.