A notícia é simples e por isso mesmo incomodaria muita gente que vive de complicar o que é simples. Uma farmacêutica australiana de pequeno porte, focada em dermatologia, registrou crescimento expressivo de receita no terceiro trimestre de 2026, puxada pela escalada comercial de um produto aprovado pelo regulador americano há pouco mais de um ano. Não houve milagre, não houve subsídio, não houve programa governamental de incentivo à inovação com nome pomposo e sigla de quatro letras. Houve uma molécula, um mercado, e pessoas dispostas a pagar pelo que resolve um problema delas. O resto é narrativa de quem precisa justificar o próprio salário em algum ministério.
Olha, vale a pena parar dois segundos diante de um fato corriqueiro como esse e perguntar por que ele só acontece em determinados países. A Austrália não é uma utopia liberal, longe disso, mas mantém o mínimo decente que qualquer empreendedor precisa para tirar uma ideia da bancada e levar ao mercado: regras claras, foro previsível, judiciário que cumpre contrato e um sistema de capital que não trata investidor como suspeito de lavagem de dinheiro até prova em contrário. Some isso ao acesso real ao mercado americano, onde a aprovação regulatória, embora cara, é uma porta que abre, e você tem o ambiente em que uma empresa pequena consegue crescer sem precisar de padrinho político.
Compare com o que se passa em terras tupiniquins. Aqui, a mesma trajetória, da pesquisa básica ao primeiro paciente atendido, viraria uma novela de mais de uma década, com vilões na vigilância sanitária, figurantes nos conselhos de classe e um final melancólico em que o produto chega ao mercado depois que o concorrente americano já dominou o nicho. E aí vem o coro habitual: precisamos de uma política industrial, precisamos de um BNDES forte, precisamos de um marco regulatório da inovação. Quer dizer, precisamos de mais Estado para resolver o problema que o Estado criou. É a velha receita de incendiar a casa para depois cobrar pelo extintor.
Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Toda vez que se fala em "fomentar a inovação" no Brasil, o que se está fomentando é a estrutura intermediária que vive de carimbar pedido de fomento. O laboratório que cresce de verdade é aquele que consegue escapar da sucção burocrática tempo suficiente para entregar um produto antes que o concorrente lá fora já tenha feito a quinta versão. Os incentivos fiscais, os editais, as chamadas públicas, as parcerias para o desenvolvimento produtivo, tudo isso compõe um teatro caro em que o contribuinte paga o ingresso e nem fica para ver o segundo ato.
Tem ainda a dimensão moral que ninguém quer encarar. Quando uma empresa cresce vendendo um produto que as pessoas escolhem comprar, há uma transação voluntária que se repete milhões de vezes e produz, ao final, riqueza onde antes havia ausência. Isso é dignidade econômica em estado puro, sem precisar de discurso de inclusão, sem necessitar de conselho deliberativo paritário, sem depender de selo de sustentabilidade emitido por consultoria que vive de emitir selo. A vendinha funciona porque o vendedor e o comprador combinaram entre si, e não porque um burocrata em Brasília achou bonito.
O que esse trimestre australiano nos diz, no fundo, é o óbvio que ninguém mais enxerga: empresa cresce quando deixam ela crescer. Não é pouco. É quase tudo. E enquanto continuarmos venerando o santo da intervenção, continuaremos importando, a preço de ouro, exatamente os produtos que poderíamos estar exportando, fabricados por gente que aprendeu, antes de nós, a fazer a coisa mais difícil do mundo, que é tirar o pé do pescoço de quem produz.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.