O primeiro trimestre do BPI veio abaixo das previsões e, como de praxe, o mercado fingiu surpresa. Engraçado, porque surpresa genuína exigiria que as previsões tivessem algum lastro com a realidade, e há muito tempo que projeção de lucro bancário virou exercício de redação criativa. O banco performou mal num ambiente em que o Banco Central Europeu passou a última década distorcendo a curva de juros, subsidiando dívida soberana impagável e empurrando capital para onde o capital, se fosse livre, jamais iria. Agora que o remédio começou a ser retirado aos poucos, a ressaca aparece no balanço, e o balanço do BPI é apenas um termômetro entre muitos.

Olha, a história dos ciclos bancários é sempre a mesma e, no entanto, sempre contada como se fosse novidade. Expande-se crédito artificialmente, infla-se ativos, celebra-se o boom, distribui-se bônus, e quando a correção inevitável chega o coro entoa que foi um choque externo, uma conjuntura adversa, um imponderável. Nunca é. É o efeito inevitável de décadas tratando a taxa de juros, que é um preço como qualquer outro, como se fosse alavanca de engenharia social. Preço travado por decreto sempre gera escassez onde devia haver abundância e abundância onde devia haver escassez. No crédito, não é diferente.

Quer dizer, o interessante é observar quem sai ileso desse tipo de trimestre e quem paga a conta. O pequeno poupador português, que viu a inflação corroer sua caderneta enquanto o juro real ficava negativo por anos, continua apanhando. O mutuário de crédito habitação, pendurado numa Euribor que subiu, desceu e vai subir de novo conforme a vontade do comitê em Frankfurt, segue refém. A camada gerencial do banco, essa, recebe stock options atreladas a metas ajustadas. É sempre assim. Quando a política monetária beneficia, é mérito da gestão. Quando prejudica, é culpa do ambiente macro. A assimetria é tão grosseira que já nem disfarça.

Me diz uma coisa, que sentido faz esperar que um banco de varejo em Portugal performe bem quando o tecido produtivo europeu está enforcado por regulação verde, compliance bancário kafkiano e uma Bruxelas que legisla como se empresa fosse ONG e empresário fosse suspeito. O BPI não vive no vácuo; vive num continente que decidiu, democraticamente e por consenso de tecnocratas, punir quem produz para financiar quem regula. A margem financeira não cai por acaso. Cai porque o negócio de emprestar para quem produz perdeu clientes. E os clientes sumiram porque produzir na Europa virou esporte radical.

Há algo de cômico, também, nesse ritual trimestral de previsões e decepções. Analistas com planilhas sofisticadíssimas erram sistematicamente na mesma direção, e ninguém pergunta por quê. A resposta é simples e incômoda: o conhecimento necessário para projetar com precisão os resultados de uma instituição que opera em cinquenta jurisdições, sob cem reguladores, com mil produtos, não existe concentrado em lugar nenhum. Está disperso entre milhões de agentes cujas decisões mudam a cada minuto. O preço do mercado, quando deixado em paz, agrega essa informação em tempo real. A projeção do analista, não. Por isso o mercado acerta e o analista erra. Sempre errou, sempre errará.

No fim, o trimestre fraco do BPI não é notícia. Notícia seria o trimestre forte num ambiente destes. A pergunta que importa não é por que o banco decepcionou, mas por quanto tempo mais os europeus vão aceitar pagar a fatura de um arranjo monetário e regulatório que destrói capital, desencoraja poupança e transforma instituições financeiras centenárias em reféns de comitês que nunca emprestaram um centavo do próprio bolso. Banco que depende de planejador central acaba como o planejador: quebrado, mas jurando que a próxima intervenção resolve.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.