Pregão fechado, 0,91% de alta, e os manchetistas correndo para vender otimismo embalado em gráfico verde. Quer dizer, a bolsa subiu, então está tudo bem? Olha, antes de comemorar, vale perguntar o que exatamente subiu, por que subiu e quem ganhou com a subida. Porque o pequeno detalhe que a manchete não conta é que o Ibovespa brasileiro, há décadas, dança no compasso de duas batutas: o humor da Faria Lima diante da próxima rodada de gastança do Tesouro e a temperatura do dólar diante da próxima cretinice anunciada em Brasília. Mercado livre, isso? É termômetro de expectativa fiscal travestido de pregão.

Me diz uma coisa: você acha mesmo que essas oscilações diárias representam o estado real da economia produtiva brasileira? O sujeito que toca uma metalúrgica em Caxias do Sul, que produz parafuso, que emprega quarenta pessoas, esse aí não viu centavo nenhum do tal pregão eufórico. Quem viu foi o gestor de fundo que apostou certo na curva de juros, o operador que precificou corretamente o próximo afrouxamento monetário, o banco que ganha nos dois lados da mesa. A bolsa virou casino de elite financeira que prospera às custas da expectativa de mais dinheiro impresso, mais título público emitido, mais imposto cobrado lá na ponta para alimentar o ciclo.

E a trilha do dinheiro, quando você se dá ao trabalho de segui-la, sempre leva ao mesmo lugar. Quem compra ação no Brasil? Em boa parte, fundos de pensão estatais, bancos públicos, investidor institucional que precifica a próxima intervenção do governo no mercado. Quem se beneficia da alta? Os mesmos. Quem paga a conta quando a inflação aparece, quando o juro sobe para conter a fogueira fiscal, quando a moeda derrete? O assalariado, o aposentado, o microempresário que nunca pisou numa corretora. Socializa-se o prejuízo, privatiza-se o lucro, e ainda chamam isso de capitalismo. Não é. É compadrio com gravata e terno italiano.

Há uma falácia repetida à exaustão de que bolsa em alta significa economia saudável. Pergunte ao venezuelano da última década, cuja bolsa de Caracas batia recordes nominais enquanto o povo comia lixo. Pergunte ao argentino que viu o Merval explodir em pesos enquanto o supermercado ficava vazio. Ativo financeiro nominal não é riqueza real. Quando o governo expande crédito, infla a base monetária, manipula a taxa de juros para baixo, os preços de ativos sobem antes dos preços de bens, e o tolo confunde o sintoma com saúde. É o velho boom artificial que sempre antecede o estouro inevitável, e o estouro nunca atinge primeiro quem fabricou o problema.

O que se vê é o pregão verde, o sorriso do âncora econômico, a manchete otimista. O que não se vê é a dívida pública batendo recorde atrás de recorde, o setor produtivo sufocado por tributação confiscatória, o investidor estrangeiro que olha para o Brasil e calcula o risco de calote disfarçado de inflação. O que não se vê é o jovem que abandonou o sonho do próprio negócio porque a burocracia, o imposto e a insegurança jurídica tornaram empreender no Brasil um ato heroico ou suicida, conforme o ponto de vista. A bolsa sobe, o país encolhe. E ninguém liga os pontos.

O capitalismo de verdade, aquele que enriqueceu nações inteiras em uma geração, não é esse balé de especulação alimentado por banco central e dívida soberana. É o sujeito que poupa, investe, produz, contrata, e enfrenta a competição num mercado onde ganha quem serve melhor ao consumidor. Esse capitalismo, no Brasil, foi sufocado em berço esplêndido por sucessivas administrações que confundiram economia com cofre próprio. Então quando vier a próxima manchete celebrando o pregão em alta, lembre-se: o termômetro pode estar marcando 38 graus, mas a febre é do paciente, não do termômetro. E o paciente, neste caso, somos todos nós.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.