O anúncio veio embrulhado em comunicado oficial, com aquele tom solene de quem descobriu a pólvora: o Brasil agora pode exportar carne bovina resfriada para as Filipinas. Traduzindo do palavreado ministerial para o português dos mortais, um país asiático com 115 milhões de bocas decidiu que o boi brasileiro é bom o suficiente para entrar na geladeira deles. Detalhe que o comunicado evita sublinhar: o boi já era bom há décadas, o frigorífico já estava pronto, o navio já existia, e o produtor rural já pagava imposto suficiente para financiar três ministérios. O que faltava era exatamente aquilo que o Estado costuma cobrar caro para entregar, a saber, sair do caminho.

Olha, é curioso o teatro que se monta nessas horas. O ministério convoca a imprensa, distribui release, posa para a foto e sugere, sem dizer com todas as letras, que a abertura do mercado filipino é fruto de alguma genialidade diplomática palaciana. Quer dizer, a mesma máquina que leva oito meses para emitir uma certidão negativa de débito agora se apresenta como protagonista de uma negociação sanitária internacional. A pergunta honesta é outra: quanto tempo essa autorização levou para sair, quantos protocolos foram exigidos, quantas viagens de comitiva foram pagas com dinheiro do contribuinte para destravar algo que, num país sério, seria reconhecimento automático entre serviços veterinários competentes?

Me diz uma coisa, quem efetivamente assume o risco nessa cadeia? O pecuarista que financia pasto, vacina, ração e juros de banco oficial a custo de extorsão. O frigorífico que investe em câmara fria, certificação, rastreabilidade e ainda paga a conta da burocracia sanitária. O exportador que segura câmbio, frete marítimo e tarifa portuária. O consumidor brasileiro que vê o preço da picanha subir porque parte do rebanho foi para Manila. Em nenhum momento dessa lista aparece o burocrata de Brasília, mas é ele que aparecerá no telejornal sorrindo ao lado da bandeira filipina, como se tivesse parido o bezerro pessoalmente.

E aqui mora a parte que ninguém quer enxergar, aquela que fica fora do enquadramento da câmera. Cada novo mercado aberto é celebrado como vitória nacional, e de fato é, mas a celebração esconde o custo invisível: tudo o que o setor poderia ter exportado, e não exportou, durante os anos em que essa mesma autorização ficou engavetada em alguma gaveta de subsecretaria. Quantos contratos não foram fechados? Quantos empregos no interior do Mato Grosso, de Goiás, do Pará, deixaram de existir porque a papelada andava na velocidade do funcionalismo estável? Esse cemitério de oportunidades perdidas não vira manchete, porque o que não aconteceu não fotografa bem.

Há ainda o outro lado da equação, o asiático, que merece atenção. As Filipinas não abriram o mercado por simpatia tropical nem por bondade do presidente local. Abriram porque precisam de proteína animal a preço competitivo, porque a Austrália anda cara, porque os Estados Unidos andam politizados e porque a Índia não come carne bovina por motivos que dispensam explicação. O Brasil entrou pela porta da necessidade alheia, não pela porta da generosidade diplomática. É a velha lição de sempre: o comércio acontece quando dois lados precisam um do outro, e nenhuma quantidade de discurso ministerial substitui essa aritmética básica do interesse mútuo.

Resta então a pergunta que o release oficial jamais responderá. Se o setor privado é capaz de produzir a melhor carne do mundo, transportá-la refrigerada por quinze mil quilômetros e entregá-la dentro do padrão sanitário mais rigoroso de um país insular, por que precisa pedir licença para um burocrata de paletó para fazer isso? A resposta, incômoda, é que não precisa. Mas o burocrata precisa do pedido, porque sem ele perde o emprego, perde o discurso e perde a foto. O boi atravessa o Pacífico carregando, além de si mesmo, toda a estrutura parasitária que insiste em se apresentar como sua causa eficiente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.