A notícia chega embrulhada em papel de presente. Entraram US$ 1,59 bilhão a mais do que saíram no início de maio, e os comentaristas de plantão correm para celebrar como se fosse mérito da gestão pública brasileira. Quer dizer, o capital estrangeiro decidiu visitar o Brasil porque acredita no projeto de desenvolvimento nacional? Não. Decidiu visitar o Brasil porque a taxa básica de juros está nas alturas, sangrando o contribuinte para pagar rentista, e porque o real está barato o suficiente para que qualquer fundo de Nova York consiga arbitrar a diferença sem suar a camisa.
Olha, isto não é entrada de capital produtivo. Isto é capital de carry trade, dinheiro que entra para colher juro alto e sair na primeira fumaça. Cada dólar que aterrissa aqui é fruto direto de uma Selic mantida em patamar estratosférico para tampar o rombo fiscal que a farra do gasto público abriu. O governo gasta como bêbado em open bar, o Banco Central sobe os juros para conter a inflação que o próprio governo fabrica, e o estrangeiro aparece para faturar em cima desse arranjo. O brasileiro comum, que paga imposto, financia tudo. É a engenharia financeira da pilhagem disfarçada de boa notícia macroeconômica.
Me diz uma coisa: que tipo de economia saudável precisa atrair dólar pagando juro real de dois dígitos? A resposta é simples e ninguém quer dizer em voz alta. Uma economia que não consegue se sustentar pela produção, pela poupança interna, pelo investimento produtivo, e que portanto precisa importar liquidez ao preço que o mercado mandar. É o equivalente cambial daquele sujeito que paga juro de cartão de crédito para fingir solvência por mais um mês. O fluxo positivo de hoje é a hipoteca que vence depois das eleições.
E tem ainda o detalhe que se esconde nas entrelinhas do dado. Quando o dólar entra por essa via, a moeda local se aprecia artificialmente, o que mata exportador, mata indústria de transformação, mata quem produz coisa de verdade. A festa é dos bancos que intermediam a operação, dos fundos que arbitram a diferença, da Faria Lima que vive de spread. A conta, como sempre, fica para o cara que produz, contrata e tenta competir com importado favorecido por câmbio fora do lugar. O destruidor invisível do parque produtivo nacional não é o livre comércio, é o subsídio implícito ao rentismo financeiro que o próprio Estado fabrica.
A imprensa especializada trata o boletim cambial como termômetro de saúde. Não é. É termômetro de febre. Cada bilhão que entra atraído por juro alto é um bilhão que vai sair correndo no dia em que o ciclo virar, e quando sair, a desvalorização será proporcional à ilusão criada. Já vimos esse filme nos anos noventa, nos anos dois mil, e em todas as economias emergentes que confundiram fluxo especulativo com confiança real. O resultado é sempre o mesmo: choque cambial, pacote de emergência, ajuste recessivo, e o eterno discurso de que ninguém viu a crise chegar.
O que não se vê neste número de US$ 1,59 bilhão é a fila de empresas que fecharam porque o custo do crédito interno é proibitivo, a poupança popular que foi corroída pela inflação que o juro alto tenta domar tarde demais, e a próxima geração que herdará uma dívida pública que dobrou de tamanho enquanto o governo brindava com os "fundamentos sólidos". Comemorar entrada de capital especulativo é comemorar a febre achando que é vigor. E quando a temperatura cair, vão dizer que foi imprevisto, choque externo, conspiração. Será apenas a conta chegando, como sempre chega, pontual e impiedosa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.