O calendário não mente. Faltam meses para a eleição e, por uma coincidência que só os ingênuos ainda chamam de coincidência, o governo redescobre a urgência humanitária de perdoar dívidas de consumidores. O programa volta repaginado, com nome novo, marketing afiado e a mesma essência de sempre, transferir custo de uns para outros enquanto o palanque colhe os aplausos. Quer dizer, se a preocupação fosse genuinamente com o endividado, ela existiria em janeiro de ano ímpar, quando ninguém está distribuindo santinho. Mas não, ela só aparece quando há urna a ser conquistada.
Olha, o mecanismo é antigo como a própria democracia degenerada em leilão. Você toma do contribuinte que pagou em dia, do banco que vai repassar o prejuízo no spread futuro, do poupador que verá sua moeda corroída pela próxima rodada de gastança, e entrega na mão do devedor que conviria ao governo agradar. O eleitor que recebeu o perdão sente o benefício imediato e palpável. O eleitor que pagou pelo perdão, esse não vê nada, porque o custo está diluído no preço do crédito futuro, na inflação amanhã, no juro que sobe depois das eleições. Aquilo que se vê é o devedor sorrindo na propaganda; aquilo que não se vê é o trabalhador honesto pagando a conta sem nunca saber que pagou.
Me diz uma coisa, que sinal isto manda para a sociedade? Que disciplina financeira é coisa de otário, que honrar contrato é ingenuidade, que o cidadão que apertou o cinto e pagou suas contas é um trouxa por não ter esperado a benesse oficial. Cada perdão coletivo é um convite para o próximo descontrole, porque ensina que existe sempre uma porta de saída política para o que deveria ser responsabilidade pessoal. A inadimplência futura já está sendo plantada agora, e quem vai colher é o crédito mais caro para todos, especialmente para os mais pobres, justamente aqueles que o governo jura proteger no horário eleitoral gratuito.
A coisa fica ainda mais saborosa quando se segue o dinheiro até o fim. Quem opera o perdão? Os bancos, é claro, que recebem alguma forma de compensação, garantia, abatimento tributário, linha de crédito subsidiada, alguma engenharia financeira que o sujeito comum nem consegue ler no Diário Oficial. O capitalismo de compadrio funciona assim, governo e banqueiro de braço dado fingindo que estão salvando o povo enquanto repartem o butim. O devedor ganha alívio momentâneo, o banqueiro ganha colchão público, o político ganha voto, e o pagador silencioso da festa, esse não foi convidado nem para o cafezinho.
O mais cínico de tudo é a embalagem moral. Vendem o perdão como gesto de compaixão, quando compaixão de verdade se faz com o próprio bolso, não com o bolso alheio. Tirar do vizinho para parecer generoso é o oposto da virtude, é teatro, e o pior tipo de teatro, aquele encenado com dinheiro que não é seu para comprar afeto que não é merecido. A bondade estatal sempre tem essa marca, ela infantiliza o cidadão tratando-o como incapaz de arcar com suas escolhas, ao mesmo tempo em que cria nele a dependência crônica do próximo socorro, do próximo pacote, do próximo perdão eleitoral.
No fim da história, o que se relança não é programa de alívio, é programa de servidão suave. Cada brasileiro que aplaudir esta medida estará, sem perceber, batendo palma para a corrente que lhe será posta amanhã, quando o governo precisar tributar mais, imprimir mais, regular mais para fechar a conta que ele mesmo abriu. Não existe almoço grátis, nunca existiu, e quem promete almoço grátis em véspera de eleição está cobrando, no mínimo, seu voto, e no máximo, sua liberdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.