O Banco Central anunciou com pompa que o fluxo cambial de abril, até o dia 24, fechou positivo em US$5,984 bilhões, com o segmento financeiro respondendo pela maior parte da entrada. Os jornais econômicos repetiram o número como quem reza o terço, e os analistas de banco saíram correndo para escrever que o real está "fortalecido", que a economia está "robusta", que os investidores estão "confiantes". Quer dizer, o mesmo investidor que ontem fugiu do Brasil porque o ministro da Fazenda gastou demais hoje voltou porque o Federal Reserve sinalizou corte de juros, e isso, para o sujeito da Faria Lima, é fundamento. Não é. É arbitragem.
Olha, o ponto que ninguém quer encarar é simples. Quando um país precisa que o capital estrangeiro entre todo mês para fechar a conta corrente, esse país não é forte, é dependente. A diferença entre um devedor crônico e um trabalhador autônomo é que o devedor comemora quando o banco renova o crédito, enquanto o autônomo comemora quando recebe pelo serviço prestado. O Brasil há décadas comemora a renovação do crédito. E se passa por prosperidade.
Me diz uma coisa, de onde vem esse dólar exatamente? Vem do diferencial de juros, que é a maneira elegante de dizer que o Tesouro brasileiro paga uma das taxas reais mais altas do planeta para que o gringo aplique aqui, ganhe o spread e vá embora quando o vento mudar. É o que se chama de capital de curto prazo, dinheiro turista, que entra de short e sai de paletó na primeira nuvem no horizonte. Cada bilhão que entra hoje aumenta o passivo externo de amanhã, porque esse capital cobra juro, exige remessa de lucro, demanda hedge cambial e some no instante em que aparece uma oportunidade melhor em Jacarta ou em Istambul.
E aqui está o truque que a imprensa econômica não conta. O fluxo positivo no segmento financeiro mascara a sangria do segmento comercial, onde a balança que deveria ser o pulmão do país está sendo apertada pelos custos brutais de produzir qualquer coisa em território nacional. O Brasil exporta soja, minério e carne, importa tecnologia, máquinas e remédios, e finge que isso é normal. A indústria que sobreviveu às décadas de protecionismo morreu nas décadas de juro alto, e o que restou é uma economia primária maquiada com algoritmo de fundo multimercado.
Há ainda o detalhe deliciosamente perverso de que esse dólar barato, fruto da entrada cambial, alivia a inflação no curto prazo e dá ao governo a desculpa perfeita para gastar mais. Câmbio apreciado é como anestesia. O paciente não sente dor, mas a doença continua progredindo. O ministro comemora a inflação dentro da meta enquanto o déficit primário explode, e quando a anestesia passar, e ela sempre passa, a conta virá em forma de fuga de capitais, alta do dólar e nova rodada de aperto monetário que vai estrangular o que sobrou da economia produtiva.
O que se vê é o número bonito do boletim do BC. O que não se vê é o trabalhador brasileiro pagando, via imposto e via juro embutido em cada produto, a festa do investidor estrangeiro que veio ganhar carry trade e vai embora antes do galo cantar. Comemorar fluxo cambial positivo num país que não produz é comemorar o cheque do agiota antes de saber que o vencimento é amanhã.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.