A notícia chega embrulhada no papel de presente da governança corporativa, mas basta abrir a caixa para encontrar o velho conhecido de sempre. A presidente da Petrobras foi indicada para presidir o conselho da Braskem, e a Novonor, antiga Odebrecht, completou a lista de nomes que vão tomar conta de uma empresa que há anos opera entre o respirador artificial e a unidade de terapia intensiva. Em qualquer país sério, isso seria notícia de página policial. Aqui, é divulgado como reorganização societária.
Vamos começar pelo óbvio que ninguém quer enxergar. A Braskem é uma empresa privada que acumula prejuízos, processos ambientais bilionários por causa do afundamento de bairros inteiros em Maceió, dívida em moeda estrangeira e um modelo de negócio que depende de nafta cara, dólar comportado e China comprando resina como se não houvesse amanhã. Nenhuma dessas três condições está dada. E a solução que se apresenta para o problema não é venda, não é falência ordenada, não é capitalização privada com investidor disposto a perder o próprio dinheiro. É colocar a estatal do petróleo, ou seja, o contribuinte, ainda mais perto do volante de um carro que já está com a roda solta.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. A Petrobras é cliente da Braskem, é fornecedora da Braskem, é sócia da Braskem e agora preside o conselho da Braskem. O sujeito vende a matéria-prima, compra o produto final, divide o capital e ainda decide a estratégia. Em qualquer manual elementar de conflito de interesses, isso seria caso de cassação imediata. No capitalismo de compadrio brasileiro, é sinônimo de sinergia. Os bancos públicos aplaudem, a imprensa especializada chama de movimento estratégico, e o cidadão que paga o pato segue achando que petróleo é nosso, sem perceber que o prejuízo também é.
O detalhe que o noticiário esconde é a hierarquia invisível de quem paga essa conta. Quando a estatal investe em empresa privada quebrada, ela não está usando dinheiro próprio, está usando dividendo que deixa de ir para o Tesouro, está usando combustível que poderia estar mais barato na bomba, está usando margem que poderia virar exploração de novos poços. Cada real que escora a Braskem é um real que sai do bolso de alguém que jamais foi consultado, jamais assinou contrato e jamais autorizou a operação. A janela quebrada da Maceió subterrânea não gera riqueza para ninguém, gera apenas a ilusão de que o Estado está fazendo alguma coisa enquanto destrói valor em silêncio.
Há ainda a moralidade do arranjo, e aqui o caso fica grotesco. A Novonor é a sucessora corporativa da empresa que protagonizou o maior escândalo de corrupção da história recente do país. Os mesmos cofres que financiaram propinas continentais agora indicam conselheiros para administrar uma joint venture com a estatal que foi vítima daquele mesmo esquema. Quem julga o caráter pelas ações, e não pelos comunicados de imprensa, percebe que nada foi punido em definitivo, nada foi reformado em essência, nada foi aprendido como lição. Trocaram o nome da empresa, refizeram o organograma, contrataram nova consultoria de comunicação e tocaram o jogo. O sistema se autopreserva, e o brasileiro paga o ingresso para assistir à mesma peça com elenco renovado.
O que se vende como governança é, na prática, a confissão de que o mercado livre nunca foi autorizado a funcionar nesse setor. Houvesse leilão verdadeiro, comprador estrangeiro entraria, capital privado nacional disputaria, e os prejuízos ficariam onde sempre deveriam ficar, no bolso de quem aceitou o risco voluntariamente. Em vez disso, monta-se mais uma camada de ficção contábil em que a estatal segura o crédito, a privada segura o controle, e o contribuinte segura a vela. Enquanto isso for chamado de estratégia industrial, a economia brasileira seguirá sendo um cassino em que a casa só ganha quando o jogador é o povo.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.