A cena se repete com a regularidade de um relógio suíço enferrujado. Uma empresa de hidrogênio verde, daquelas que vivem de subsídio federal americano e promessa de "transição energética", divulga balanço com prejuízo, e o mercado responde com elevação de preço-alvo. A B.Riley olhou os números da Plug Power, viu que a receita ficou acima da estimativa dos analistas, e decidiu que isso, por si só, justifica recomendar a ação. Quer dizer, perdeu menos dinheiro do que o esperado, então vale mais. É a aritmética do absurdo aplicada à bolsa, e funciona porque alguém está pagando a conta no fim da linha, e esse alguém raramente é o investidor institucional que compra o relatório.

Olha, a Plug Power é o caso clínico perfeito de empresa que só existe porque o governo americano decidiu que ela deve existir. Sem o Inflation Reduction Act, sem os créditos fiscais por quilograma de hidrogênio produzido, sem o tarifaço protecionista contra o hidrogênio chinês, a companhia teria virado pó há cinco anos. Foram quase duas décadas de prejuízo ininterrupto, diluição constante do acionista minoritário, emissões de ações a preços cada vez mais miseráveis, e ainda assim o mercado encena o ritual da boa nova quando o trimestre vem menos pior. Isso não é análise financeira, é teatro litúrgico do capitalismo de compadrio.

Me diz uma coisa, quem ganha de verdade nessa brincadeira? Não é o aposentado da Flórida que comprou Plug a quarenta dólares e hoje vê a ação valendo trocados. Não é o contribuinte americano, que financia via dedução fiscal o hidrogênio que ninguém pediu. Quem ganha é o executivo que recebe stock options renovadas a cada queda, o banco que estrutura a próxima oferta de ações, o analista que precisa justificar a cobertura ativa de um papel que move volume, e o lobista de Washington que vende a narrativa do "futuro verde" para deputados que não distinguem eletrólise de eletrocardiograma. Siga o dinheiro, e a paisagem fica nítida como dia de inverno em céu de Brasília.

O que ninguém aponta, porque apontar dói, é o custo invisível dessa farra. Cada dólar de crédito tributário concedido à Plug Power é um dólar que saiu do bolso de uma empresa lucrativa, de um trabalhador que pagou imposto de renda, de um pequeno empresário texano que não vai abrir aquela filial porque a alíquota subiu. O emprego "verde" criado em Houston aparece na foto do ministro; os empregos destruídos na refinaria de Louisiana e na siderúrgica de Indiana não rendem coletiva de imprensa. A janela quebrada é celebrada, o vidraceiro sorri, e ninguém se lembra do alfaiate que perdeu a freguesia.

Há ainda o vício mais profundo, aquele que a teoria monetária ensina há um século e o establishment finge não ouvir. Quando o juro é artificialmente comprimido por anos a fio, projetos que jamais sobreviveriam ao cálculo econômico honesto ganham vida de zumbi. Hidrogênio verde a custo industrial impossível, baterias que dependem de minério extraído por mão de obra escrava no Congo, painéis solares fabricados com carvão chinês, tudo isso só fecha conta porque o crédito é barato e o subsídio é farto. Tire a muleta dupla do banco central e do tesouro, e metade do índice ESG cai no chão antes de chegar ao próximo trimestre.

A elevação do preço-alvo, portanto, não é insight, é coreografia. O analista cumpre seu papel no rito, o jornal financeiro replica, o algoritmo compra, e o ciclo se sustenta enquanto o dinheiro alheio durar. Mas dinheiro alheio sempre acaba, e quando acaba, sobra a pergunta que ninguém quis fazer no auge da festa, a saber, o que essa empresa produz que alguém compraria voluntariamente, ao preço real, sem coação fiscal, sem mandato regulatório, sem subsídio disfarçado de política climática. A resposta, quando vier, virá em forma de pedido de recuperação judicial, e aí os mesmos analistas estarão escrevendo relatórios sobre "as lições aprendidas com o ciclo do hidrogênio". Capitalismo sem prejuízo é socialismo de cassino, e a casa, como sempre, é o contribuinte.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.