A notícia é prosaica e por isso mesmo reveladora. A Broadcom anunciou três novos chips da família Wi-Fi 8, voltados a roteadores domésticos e corporativos, com promessa de latência menor, alcance melhor e estabilidade superior em ambientes congestionados. Nenhuma cerimônia, nenhum decreto, nenhuma audiência pública. Uma empresa privada, financiada por capital privado, competindo com outras empresas privadas, entregou ao consumidor um salto tecnológico que há vinte anos teria parecido ficção científica. E o fez enquanto o noticiário econômico se entretinha com a próxima reunião do Copom e o próximo pacote fiscal de um governo qualquer.
Vale parar um segundo nesse contraste. O Wi-Fi não nasceu de um plano quinquenal, não veio de um ministério da conectividade, não foi pensado por um comitê de notáveis reunido em hotel cinco estrelas. Nasceu de engenheiros tentando resolver problemas concretos, de empresas apostando bilhões do próprio bolso, de consumidores votando com a carteira a cada roteador comprado. O padrão evoluiu por iterações sucessivas, cada geração corrigindo as deficiências da anterior, porque havia preços, lucros, prejuízos e concorrência dizendo a cada participante onde estava errando. Tente fazer isso por decreto e você terá o equivalente digital do Fusca soviético, fabricado por trinta anos sem uma única melhoria significativa.
Olha, é curioso como esse tipo de avanço passa quase despercebido justamente porque funciona. Ninguém escreve editorial comovido sobre o roteador que liga, sobre o sinal que chega, sobre o vídeo que carrega. A imprensa econômica prefere narrar o drama da Selic, o suspense do CPI americano, a próxima fala do presidente do Banco Central, como se a economia real fosse aquela. A economia real é esta, a do chip que ninguém viu sendo desenhado e que amanhã estará dentro do roteador da sua casa, baixando o preço da banda, aumentando a produtividade do escritório, viabilizando o trabalho remoto que o governo agora quer regular porque atrapalha a arrecadação.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais nítido ainda. A Broadcom investe em pesquisa porque espera retorno, e espera retorno porque existem milhões de consumidores dispostos a pagar por algo melhor. Esse circuito virtuoso, capital arriscado contra demanda voluntária, é o que produz Wi-Fi 8, smartphone na palma da mão e câmera de oito lentes por mil reais. Quando o mesmo capital é confiscado via imposto e redirecionado para "fomento à inovação" decidido por edital de fundação estatal, o resultado é seminário, relatório e amizade entre o burocrata e o lobista. Pergunte quem inventou alguma coisa relevante nos últimos cinquenta anos a partir de um plano industrial governamental. A lista é curta e os exemplos são constrangedores.
Há uma lição quase cômica nisso tudo. Os mesmos países que mais regulam, taxam e suspeitam do setor privado são os que mais dependem dos chips, dos roteadores e das plataformas produzidas justamente onde se regulou, taxou e suspeitou menos. O Brasil consome Wi-Fi 8 que jamais teria capacidade de produzir enquanto mantiver carga tributária de país nórdico com infraestrutura de país tropical e segurança jurídica de república bananeira. E ainda assim, a cada ciclo eleitoral, aparecem candidatos prometendo "polo nacional de semicondutores" como quem promete que vai cultivar abacaxi no Alasca, desde que haja subsídio suficiente.
O Wi-Fi 8 chegará às prateleiras, melhorará silenciosamente a vida de milhões e ninguém agradecerá à Broadcom. Continuarão agradecendo ao ministério que não entregou nada, à agência que só atrapalhou e ao deputado que aprovou a lei do espectro depois que o espectro já era tecnologia antiga. É assim que funciona o teatro. Mas, lá fora, longe das luzes do palco, segue rodando a única coisa que de fato produz prosperidade: gente livre, trocando livremente, arriscando o próprio capital e descobrindo, contra todo planejamento, o que ninguém sabia que era possível.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.