A Brookfield Renewable saiu do primeiro trimestre de 2026 com FFO recorde, e o noticiário financeiro repetiu a ladainha de sempre, eficiência operacional, disciplina de capital, escala global, como se a empresa tivesse descoberto a fórmula da pedra filosofal num galpão em Toronto. Olha, ninguém precisa ser gênio das finanças para entender o que aconteceu. A companhia opera num setor onde o cliente final não escolhe comprar, escolhe ser obrigado a comprar, e onde o concorrente foi proibido por decreto de existir. Chamar isso de performance empresarial é como elogiar a pontaria de um atirador que mira num alvo amarrado.

Quer dizer, vamos seguir o dinheiro com a paciência que o assunto merece. O FFO da Brookfield não brota de consumidores escolhendo livremente sua fonte de energia num mercado competitivo. Brota de mandatos de portfólio renovável que governos impuseram a distribuidoras, de créditos fiscais bilionários assinados em Washington sob o rótulo simpático de Inflation Reduction Act, de leilões regulados na Europa onde a tarifa é garantida por vinte anos com correção monetária, de financiamento subsidiado de bancos de desenvolvimento que cobram do gestor renovável uma taxa que o pequeno empresário brasileiro só vê em sonho. Tira-se isso da equação e o tal recorde vira prejuízo contábil em três trimestres.

O truque é antigo, só mudou a embalagem. No século XIX chamava-se concessão ferroviária com terras gratuitas e garantia de juros. No século XX virou subsídio agrícola e protecionismo siderúrgico. No século XXI chama-se transição energética e vem com bandeira verde, mas a mecânica é idêntica, o Estado define quem ganha, o contribuinte paga a fatura disfarçada de tarifa, conta de luz ou imposto, e o gestor de ativos colhe o spread entre o custo regulado e o custo real. A novidade é que dessa vez convenceram a classe média a aplaudir o próprio confisco achando que está salvando o planeta.

O detalhe que nenhum analista do sell side menciona é o que não se vê. Cada megawatt eólico ou solar contratado a preço garantido por duas décadas é um megawatt térmico ou hidrelétrico que deixou de existir, é capacidade de baixo custo aposentada antes da hora, é rede de transmissão refeita em ritmo militar com dinheiro que sairia de escolas, hospitais ou simplesmente do bolso de quem trabalha. O recorde da Brookfield tem nome e endereço do outro lado, é a indústria alemã fechando porta porque a energia ficou impagável, é a fábrica britânica migrando para a Ásia, é a família americana pagando mais caro pela conta de luz para que o fundo canadense distribua dividendo.

E aqui mora o paradoxo que ninguém quer enfrentar. Se as renováveis fossem tão competitivas quanto a propaganda anuncia, não precisariam de mandato, não precisariam de crédito tributário, não precisariam de tarifa garantida, não precisariam de leilão reservado. Bastaria deixar o consumidor escolher. O fato de que o setor inteiro depende de um andaime regulatório feito de decreto, lobby e ESG já diz tudo sobre a sua viabilidade. Empresa que precisa de lei para ter cliente não é empresa, é departamento estatal com ações na bolsa.

O recorde de FFO, portanto, não é vitória do capitalismo, é boletim de produtividade do capitalismo de compadrio na sua versão climática. A Brookfield faz o que qualquer ente racional faria diante daquele cardápio de incentivos, maximiza captura. O problema não é a empresa, é o arranjo. E enquanto o brasileiro médio aplaude o resultado trimestral achando que está torcendo pelo livre mercado, está na verdade pagando, via tarifa, via inflação, via imposto, o bônus do executivo que estruturou a operação. Quando o lucro depende mais do despacho ministerial do que do consumidor satisfeito, troque o nome do jogo, não é mais economia, é política com balanço auditado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.