O BTIG, uma dessas casas de análise que servem de oráculo para o dinheiro grande, voltou da Cúpula de Saúde Digital de Boston anunciando "tendências-chave" como quem traz lascas da Tábua da Lei. Inteligência artificial diagnosticando, plataformas integrando prontuários, telemedicina expandindo, gestores de benefício farmacêutico sendo "redesenhados", reembolso do Medicare correndo atrás da nova tecnologia. Tudo embrulhado naquele vocabulário asséptico de PowerPoint que faz o leitor desavisado pensar que está diante de pura ciência, quando o que está diante dele é, na verdade, a coreografia mais antiga do capitalismo de compadrio: empresa grande, regulador amigo, banco animado, contribuinte pagando a conta sem saber.
Repare na engenharia. Cúpula em Boston, cidade-templo das universidades subsidiadas, dos hospitais que vivem de Medicare e Medicaid, dos laboratórios que crescem à sombra do FDA. Os "insights" dos analistas não tratam de quem está curando mais gente por menos dinheiro. Tratam de quem vai capturar o próximo fluxo de reembolso público, de qual startup terá o selinho regulatório que mata seis concorrentes ainda na incubadora, de qual plataforma será "padrão de mercado" porque alguém num escritório em Washington decidiu que ela é. O que se chama de inovação na apresentação é, no andar de baixo, a velha disputa por quem vai ordenhar a vaca fiscal com mais eficiência. E a vaca, lembremos, é o pagador de impostos americano e, por tabela, o brasileiro que compra remédio caro porque o sistema global de patentes foi desenhado nesses mesmos saraus.
O que se vê é o brilho da tecnologia, o algoritmo que detecta câncer antes do médico, o aplicativo que conversa com o cardiologista. O que não se vê é o pequeno consultório que fechou porque não tem capital para se adaptar à nova exigência de interoperabilidade que três gigantes ajudaram a redigir. O que não se vê é o paciente que continuará pagando plano caríssimo porque a "eficiência" prometida nunca chega ao boleto, só ao balanço do acionista. O que não se vê é o cidadão comum, fora do circuito Boston-Nova York-São Francisco, ouvindo dizer que a saúde do futuro é digital enquanto o posto da esquina dele continua sem médico, e ninguém na cúpula achou isso digno de slide.
O ponto austríaco aqui não é demonizar a tecnologia. Inteligência artificial em diagnóstico é uma maravilha do conhecimento disperso operando em rede, milhões de imagens, milhões de prontuários, padrões que nenhum cérebro individual extrairia. O problema não é a ferramenta, é o arranjo. Quando o vetor da inovação é o reembolso governamental, o destino não é o paciente, é o lobby. Toda vez que um setor depende mais do humor do regulador do que do veredicto do consumidor, o que se desenvolve não é serviço melhor, é capacidade de captura. E capacidade de captura, por definição, é antimercado, porque exclui o concorrente que não tem advogado em Washington nem analista do BTIG cobrindo o IPO.
Há ainda a camada moral, que ninguém naquele auditório teve estômago de mencionar. Saúde digital, levada à última consequência, é vigilância digital. Cada batimento, cada exame, cada falha hepática transformados em dado, e dado, como sabemos desde que o mundo é mundo, é poder. Quem segura o banco de dados clínico de uma população segura algo mais perigoso do que segurou qualquer rei medieval: segura a biografia íntima de cada corpo. E essa concentração se está construindo agora, em cúpulas com café e croissant, sem que ninguém tenha votado, debatido, autorizado. Estão redesenhando a relação entre cidadão, médico e Estado, e chamando isso de "tendência-chave", como se fosse meteorologia.
No fim, o relatório do BTIG é útil, mas pelo motivo oposto ao que pretende. Ele é um mapa, não da saúde do futuro, mas de onde o capital político-financeiro pretende escavar a próxima mina. Quem ler o documento querendo entender em que aplicar dinheiro estará lendo certo. Quem ler querendo entender o que será da saúde do cidadão comum estará lendo o livro errado, porque esse livro nem foi escrito, e provavelmente ninguém em Boston pretende escrevê-lo. Inovação que precisa de subsídio, regulação amiga e relatório de banco para existir não é inovação, é loteamento. E loteamento, por mais digital que seja, continua sendo a coisa mais analógica do mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.