A notícia é deliciosa no que revela sem querer. Um banco de investimento acorda de manhã, olha para a planilha e descobre que servidores de inteligência artificial consomem energia elétrica em escala industrial. Conclusão genial, digna de prêmio: talvez as empresas que produzem energia elétrica tenham algum futuro. Por essa descoberta copernicana, a NextEra ganha preço-alvo mais generoso e o mercado aplaude. Me diz uma coisa, precisava de um analista de Wall Street com MBA de Chicago para chegar a essa revelação, ou bastaria ter conversado com o sujeito que troca o disjuntor do condomínio?
O ponto interessante não é o upgrade em si. É o que ele denuncia sobre a década perdida que acabamos de viver. Durante quinze anos, a elite iluminada decretou que energia confiável era coisa de bárbaro, que o futuro seria construído com painel solar, moinho de vento e subsídio federal. Fechou-se usina nuclear em nome da virtude, bloqueou-se gasoduto em nome do planeta, aposentou-se térmica em nome da agenda. Quando chegou a hora de ligar o ChatGPT na tomada, descobriram que o vento não sopra quando a Nvidia manda processar, e o sol não brilha às três da manhã quando o modelo está treinando na Virgínia.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. A NextEra, que por anos foi queridinha da narrativa verde, agora vira queridinha porque tem megawatts despacháveis, o que no dicionário da realidade significa gás natural e, pasmem, nuclear. A mesma indústria que os burocratas tentaram matar é a que vai salvar o sonho das big techs de dominar o mundo via modelos de linguagem. E quem paga a conta do redirecionamento tardio? O consumidor residencial, claro, que vai ver a tarifa subir porque a Microsoft, a Amazon e a Google estão comprando contrato de longo prazo a preço de nababo para garantir que os data centers não fiquem no escuro.
Aqui entra a parte que a imprensa especializada finge não ver. Existe uma diferença abissal entre o que o planejador central prometeu e o que a realidade entrega, e essa diferença é sempre paga pelo sujeito comum. Prometeram transição energética barata, limpa e rápida; entregaram apagão, dependência de minério chinês e tarifa estratosférica. Agora precisam reabrir Three Mile Island, destravar licenciamento de gás, implorar para que a indústria nuclear, sufocada por regulação, volte a construir. É o ciclo clássico: primeiro o Estado cria o problema, depois se apresenta como única solução possível para o problema que ele mesmo criou, e no meio do caminho uns poucos bem posicionados enriquecem vendendo o remédio para a doença que ajudaram a espalhar.
Existe ainda um segundo efeito invisível que ninguém está disposto a discutir. Cada gigawatt que a inteligência artificial consome é um gigawatt que não está disponível para a indústria, para o hospital, para a casa do aposentado que precisa do ar-condicionado no verão de quarenta graus. Quando a demanda explode e a oferta foi artificialmente estrangulada por uma década de idiotia regulatória, o preço sobe para todo mundo, não apenas para os gigantes do Vale do Silício. A NextEra vai ganhar dinheiro, sim, e seus acionistas merecem o lucro por terem sobrevivido ao cerco ideológico. Mas o upgrade da BTIG não é notícia de progresso, é atestado de óbito do fantasioso projeto verde que a elite cosmopolita tentou enfiar goela abaixo do planeta inteiro.
A lição, que ninguém vai tirar, é simples e velha como o mundo. Energia abundante e barata é o alicerce invisível de toda prosperidade. Quem brinca de engenheiro social com a matriz elétrica está brincando com a civilização. O mercado agora corrige o que a política estragou, à custa de anos perdidos e trilhões desperdiçados em subsídios que não geraram um quilowatt confiável. Da próxima vez que um ministro aparecer falando em descarbonizar compulsoriamente a economia, lembre dessa história. A conta sempre chega, e raramente para quem assinou o decreto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.