Chega mais uma reiteração de "compra" da BTIG para as ações da Braze, empresa de software de engajamento de clientes que teria entregue "sólido crescimento" no trimestre, e o noticiário financeiro reproduz o comunicado como se fosse revelação divina. Quer dizer, um banco de investimento manteve recomendação positiva sobre uma cliente potencial de banking, capital markets e advisory, e isso é notícia? Isso é press release travestido de jornalismo, o tipo de coisa que o leitor desavisado engole achando que recebeu informação quando na verdade recebeu marketing.
Olha, ninguém está dizendo que a Braze é ruim ou boa, essa não é a questão. A questão é o teatro. O analista sell-side vive de um arranjo em que precisa manter relação com a empresa coberta, precisa que a empresa devolva ligação, precisa que o CFO apareça no roadshow do banco, precisa que o próximo follow-on venha para a mesa dele. Rebaixar recomendação é queimar ponte, e ponte queimada não gera bônus no fim do ano. Por isso o universo das recomendações sell-side é povoado por noventa por cento de "buy" e "hold", e o "sell" só aparece quando o cadáver já está frio e ninguém mais liga.
E o que ninguém vê nessa história? O que ninguém vê é o pequeno investidor que lê "BTIG reitera compra" e ajusta a carteira como se tivesse recebido conselho fiduciário. Não recebeu. Recebeu a opinião de um profissional cujo empregador ganha dinheiro com volume de transação, com colocação de ações, com fusões e aquisições, com serviços prestados às mesmas empresas que ele avalia. O conflito de interesse não é bug, é feature do modelo de negócio. E o cidadão paga pela assimetria informacional achando que está participando de um mercado eficiente.
Me diz uma coisa, se recomendação de banco realmente antecipasse retorno, os fundos ativos que pagam milhões para essas casas bateriam o índice consistentemente. Batem? Não batem. A maioria esmagadora perde para o S&P 500 no longo prazo, o que sugere uma de duas coisas: ou as recomendações não valem o papel em que são escritas, ou os gestores que as consomem são incompetentes. Provavelmente uma combinação saudável dos dois. Enquanto isso, o influenciador de finanças da vez repassa o call da BTIG no Instagram e vira "curador de research".
Existe algo genuinamente interessante no caso Braze? Existe, mas não é a recomendação. É o fato de que empresas de software de retenção de cliente prosperam num ambiente em que a taxa de juros distorcida por uma década alimentou modelos de negócio baseados em queima de caixa e crescimento a qualquer custo. Agora que o custo do capital voltou a ter sentido, essas companhias precisam mostrar lucro real, e não apenas ARR e métricas customizadas inventadas pelo departamento de investor relations. Quem sobrevive à limpeza monetária merece atenção; quem depende de dinheiro barato eterno para justificar múltiplo, não.
A regra é simples e antiga: nunca pergunte ao barbeiro se você precisa cortar o cabelo. E nunca peça a um banco de investimento se você deve comprar as ações da cliente dele. Faça a lição de casa, leia o balanço, entenda o negócio, calcule com desconto o fluxo de caixa que você acredita, e ignore o coro dos torcedores organizados de terno e gravata. O mercado premia quem pensa por conta própria e pune quem terceiriza o cérebro para quem tem incentivo estruturado para mentir com elegância.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.