O BTIG reiterou recomendação de compra para os papéis da PPL Corporation pouco antes da Comissão de Utilidade Pública da Pensilvânia decidir sobre o pedido de reajuste tarifário da subsidiária da empresa. Traduzindo do dialeto financeiro para o português dos mortais: analistas de Wall Street estão apostando dinheiro que a agência reguladora vai liberar uma cobrança maior nas contas de luz dos pensilvanos, e querem que o investidor entre no trem antes de a notícia oficial sair. A tese de investimento, em última análise, é simples e constrangedora: confie no carimbo do burocrata.
Olha, há algo profundamente revelador nesse arranjo, e ninguém em Manhattan se dá ao trabalho de fingir que é diferente. Uma empresa privada, listada em bolsa, com acionistas globais, tem sua rentabilidade decidida não pela capacidade de servir bem o cliente, não pela engenhosidade de baixar custos, não pela disciplina de competir, mas por um colegiado de cinco comissários nomeados politicamente em Harrisburg. O consumidor não escolhe fornecedor de eletricidade na Pensilvânia, recebe. E o preço que paga é fixado num processo administrativo onde lobistas de terno bem cortado conversam com técnicos sobre planilhas que mortais jamais leem.
Chamam isso de monopólio regulado, como se o adjetivo amansasse o substantivo. Não amansa. O monopólio continua sendo monopólio, com a diferença de que ganhou uma justificativa elegante e um departamento jurídico para defendê-lo. O consumidor que tenta cancelar a PPL e contratar outra companhia descobre rapidamente que tal opção simplesmente não existe na geografia em que vive. A famosa "infraestrutura natural" virou desculpa universal para congelar a concorrência por décadas, e o resultado é previsível: a empresa pede aumento, o regulador concede uma fatia, o investidor aplaude, e a senhora de oitenta anos de Scranton paga.
Quer dizer, siga o dinheiro e o quadro se ilumina. A PPL pleiteia centenas de milhões em receita adicional alegando investimentos em rede, transição energética, modernização, todas as palavras de ordem do catecismo regulatório atual. Os comissários precisam dizer sim a alguma coisa, porque dizer não puro virou tabu político em ano em que governadores prometem "grid resiliente". O banco que cobre a ação ganha em corretagem se a tese se confirma. Os fundos institucionais que carregam o papel celebram o yield. E a conta, ela continua descendo pelos fios até o medidor da residência, onde nenhuma assembleia de acionistas jamais foi convocada para aprovar nada.
Existe uma palavra antiga para esse modelo, e ela não é capitalismo. Capitalismo pressupõe risco, falência possível, consumidor soberano, preço descoberto na fricção do mercado. O que se pratica no setor elétrico americano, e no brasileiro de maneira ainda mais escancarada, é uma sociedade entre empresa privada e Estado em que os lucros são privatizados e a definição de receita é socializada via tarifa compulsória. O acionista dorme tranquilo porque o regulador é o seguro contra a realidade. O cliente é apenas a base de cálculo.
E aí está a lição que nenhuma manchete de mercado vai destacar amanhã quando a decisão sair. Se uma recomendação de compra de uma elétrica vale ou não vale depende inteiramente do humor de cinco pessoas numa sala em Harrisburg, então o que estamos negociando em bolsa não é uma empresa, é uma concessão política travestida de ativo financeiro. O preço da ação sobe quando o poder concede, cai quando o poder hesita. Chamem como quiserem; capitalismo, definitivamente, não é.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.