A BYD quer entrar na Fórmula 1 e a justificativa oficial, devidamente engolida sem mastigar pela imprensa econômica brasileira, é que a categoria serviria de "laboratório" para testar tecnologia de veículos elétricos. Quer dizer, uma empresa que vende mais carros elétricos do que qualquer outra no planeta, que já domina cadeia de baterias, software embarcado, motor síncrono e logística global, precisa de um campeonato a gasolina, com regulamento híbrido capado e calendário decidido por um britânico de óculos escuros, para descobrir como fazer um carro andar. Olha, se você acredita nisso, tenho um terreno em Marte para te vender com escritura registrada em cartório de Xangai.

O que está em jogo aqui não é tecnologia, é vitrine geopolítica. A BYD não é uma empresa no sentido em que o ocidente entende a palavra. É um instrumento de política industrial do Partido Comunista Chinês, alimentado por décadas de subsídio direto, crédito subsidiado de banco estatal, terra cedida abaixo do valor de mercado, energia subsidiada e proteção tarifária absoluta no mercado doméstico. Quando uma "empresa" desse calibre decide queimar centenas de milhões de dólares por temporada num esporte que não dá retorno publicitário compatível, não é estratégia de marketing automotivo. É operação de bandeira. É o equivalente moderno daquelas exposições universais do século dezenove em que cada império mostrava seu progresso em pavilhão próprio para humilhar os concorrentes.

E aí entra a parte que ninguém da grande imprensa tem coragem de escrever: a indústria automobilística europeia, que durante quarenta anos foi obrigada a engolir regulação climática delirante, meta de emissão impossível, proibição de motor a combustão para 2035 e taxação punitiva sobre o consumidor que ousasse manter o carro velho funcionando, agora descobre, surpresa das surpresas, que enquanto ela cumpria penitência ambiental, a China construía em silêncio o monopólio da cadeia produtiva do elétrico. A Volkswagen demite, a Stellantis fecha fábrica, a Audi corta produção e a Renault implora por fusão, enquanto a BYD vende carro elétrico por vinte mil euros que a Volkswagen não consegue produzir por trinta. Não foi acidente histórico. Foi resultado matemático de duas políticas públicas conscientes operando em direções opostas: uma destruindo a indústria nacional em nome do clima, outra subsidiando a indústria estrangeira em nome do poder.

Sigamos o dinheiro, que é sempre o exercício mais esclarecedor. A BYD recebeu, segundo levantamentos independentes que circularam em Bruxelas no ano passado, mais de trinta bilhões de dólares em apoio estatal direto ao longo das últimas duas décadas. Isso sem contar o subsídio implícito da repressão salarial, da ausência de regulação ambiental séria nas minas de lítio do interior da China, e do dumping cambial pilotado pelo banco central de Pequim. Com esse colchão, sobra dinheiro para entrar na Fórmula 1, financiar fornecedor de motor, comprar equipe quebrada, pagar piloto vitrine e ainda transformar cada grande prêmio numa propaganda subliminar de que o futuro fala mandarim. O contribuinte chinês paga, o consumidor europeu desemprega, o consumidor brasileiro aplaude o "carro barato" e o Partido sorri.

O mais cômico, ou trágico, depende do humor do dia, é a reação dos comentaristas econômicos brasileiros, que tratam a chegada da BYD como se fosse vitória do livre mercado, da concorrência saudável, do consumidor esclarecido. Não é. É o oposto exato disso. Concorrência pressupõe regras simétricas, propriedade respeitada, capital de risco real, falência possível. Nada disso existe quando o competidor é braço operacional de um regime que jamais permitirá que sua campeã nacional vá à lona. A BYD não pode quebrar, porque o partido não deixa. E uma empresa que não pode quebrar não é empresa, é ministério com fachada comercial. Comparar a Ferrari com a BYD é comparar restaurante de bairro com bandeja do exército, fingindo que ambos competem pelo mesmo cliente.

Resta a pergunta incômoda que ninguém quer fazer: a Fórmula 1, esse último bastião de engenharia ocidental de ponta, vai aceitar virar passarela publicitária de uma estatal disfarçada porque o cheque está gordo? A resposta provável é sim, porque dinheiro fala mais alto que princípio quando o princípio nunca foi levado a sério. E quando os motores vermelhos com bandeirinha amarela cruzarem a linha de chegada em Xangai daqui a três anos, o ocidente vai aplaudir educadamente, comprar o boné oficial, e fingir que não entendeu o recado. O recado, aliás, é antigo: quem subsidia, conquista; quem regula a si mesmo até a morte, é conquistado.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.