A ByteDance anunciou que vai inflar em 25% o orçamento de inteligência artificial para 2026, e o noticiário tratou a notícia como se fosse a descoberta da pólvora. Quer dizer, uma empresa privada decide gastar mais do próprio caixa, e o mundo aplaude. O detalhe que ninguém quer encarar é o seguinte: quando uma empresa precisa anunciar publicamente que vai gastar mais, geralmente é porque o gasto anterior não entregou o retorno prometido, e o mercado começa a desconfiar. Aumentar o orçamento vira ritual de fé, não decisão econômica.

Olha, há uma diferença abissal entre investir e queimar. Investir pressupõe cálculo de retorno, horizonte de payback, comparação entre alternativas. Queimar é o que se faz quando o concorrente está queimando e você tem medo de ficar para trás. É o velho efeito manada vestido de visão estratégica. A ByteDance não está sozinha nessa fogueira, e justamente por isso o sinal de alerta deveria ser maior. Quando todos os grandes jogadores aceitam a mesma premissa sem questionar, o erro coletivo está se gestando ali, à vista de todos, e ninguém quer ser o primeiro a dizer que o rei está nu.

Vale seguir o dinheiro. Quem ganha com a expansão dessas verbas trilionárias não são os usuários finais, que continuarão usando aplicativos gratuitos com algoritmos que vendem sua atenção. Os ganhadores diretos são os fabricantes de chips, os fornecedores de energia, as empresas de infraestrutura em nuvem e o pequeno cartel de consultorias e talentos que cobra fortunas para dizer aos executivos o que eles já decidiram fazer. A festa da IA é, antes de tudo, uma festa de fornecedores. O resto da economia paga a conta indireta via subsídios disfarçados, energia mais cara e capital desviado de setores que produzem coisas que se podem tocar.

Há ainda o elefante no meio da sala que poucos comentam. A ByteDance não é uma empresa qualquer; opera sob a sombra de um regime que decide quando uma companhia pode existir e quando deve desaparecer numa noite. Anúncios de orçamento bilionário em IA, vindos de Pequim, raramente são apenas decisões de mercado. São também sinalizações geopolíticas, demonstrações de força tecnológica, peças de um tabuleiro maior em que o Estado e a empresa se confundem de modo que faria corar qualquer república bananeira. O capitalismo de compadrio chinês veste roupa de inovação, mas por baixo é o mesmo arranjo de sempre: poder político decidindo vencedores e perdedores.

O ciclo, aliás, é conhecido por quem tem memória maior do que o último trimestre. Crédito farto, dinheiro barato e narrativa eufórica criam booms que parecem eternos enquanto duram. Ferrovias no século dezenove, rádio nos anos vinte, ponto-com nos anos noventa, criptos em duas ondas recentes. Cada vez que alguém diz que desta vez é diferente, é porque desta vez vai ser igual. A tecnologia até pode entregar transformações reais, e provavelmente vai, mas o preço dos ativos que apostam nessa transformação dança num ritmo descolado da realidade econômica subjacente. Quando a música parar, e ela sempre para, sobrarão poucos cadeiras e muita gente em pé com explicações engenhosas para o desastre.

Me diz uma coisa: por que cabe ao observador comum aceitar que aumentar gasto é virtude? A pergunta correta nunca foi quanto a ByteDance vai gastar, e sim quanto vai entregar de retorno real, mensurável, em produto que alguém compre voluntariamente sem ser empurrado por algoritmo viciante. Enquanto isso, o circo segue, as ações sobem, os comunicados ficam mais grandiosos, e o cidadão comum é convidado a aplaudir uma corrida cujo prêmio ainda ninguém viu. A história ensina que toda vez que o aplauso vem antes do resultado, o resultado costuma decepcionar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.