A cena se repete com a regularidade das estações. Uma biotech de terapia celular, sem lucro no horizonte visível, sobe ao palanque de uma conferência bancária patrocinada por Wall Street e recita as duas palavras mágicas que abrem cofres: segurança e escala. A Cabaletta Bio fez exatamente isso na conferência de saúde da Cantor Fitzgerald, e o mercado, obediente, fingiu que aquilo era novidade. Não é. É liturgia. O padre biotecnológico ergue a hóstia da promessa terapêutica, os fiéis institucionais batem no peito, e a coleta segue.
Olha, ninguém precisa ser contra ciência ou contra medicina inovadora para enxergar o teatro. Terapia celular CAR-T para doenças autoimunes é uma ideia genuinamente interessante, e talvez até funcione. O problema não é o produto, é o arranjo. Empresas como a Cabaletta operam num ecossistema onde o dinheiro do investidor comum, canalizado por fundos que precisam justificar taxas, sustenta anos de queima de caixa em nome de uma promessa cuja validação final depende de agências regulatórias que, coincidentemente, empregam ex-executivos do setor e futuros consultores dele. Quer dizer, o regulador de hoje é o lobista de amanhã, e o cientista da conferência é o membro do comitê consultivo da FDA depois de amanhã.
Me diz uma coisa: por que precisamos de uma conferência de banco de investimento para descobrir se uma terapia é segura? A resposta incômoda é que a conferência não existe para descobrir nada. Existe para precificar. Segurança ali não é conceito clínico, é adjetivo de marketing. Escala também não significa que milhões de pacientes vão ser tratados; significa que o modelo de negócio comporta diluição de acionista sem colapsar o preço da ação. É jargão de banqueiro traduzido em power point de biotech, e os jornalistas de mercado repetem como se fosse ciência aplicada. Não é. É contabilidade em jaleco.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. As terapias celulares aprovadas até hoje custam entre trezentos mil e um milhão e meio de dólares por paciente. Esse preço não sai do bolso do doente nem da bondade das seguradoras; sai, em última instância, do contribuinte via Medicare, Medicaid e planos subsidiados por deduções fiscais. Ou seja, a inovação privada que a Cabaletta apresenta na Cantor Fitzgerald é privada apenas na fase do lucro. Na fase do risco, o venture capital assume; na fase do pagamento, o pagador público entra em cena. Socializam-se as contas, privatizam-se os rendimentos, e chamam isso de capitalismo. Não é. É corporativismo com bata de laboratório.
Há algo mais profundo aqui, e vale a pena parar para enxergar o que quase ninguém enxerga por ser óbvio demais. A medicina moderna se transformou num campo onde três monopólios se abraçam: o monopólio da patente, garantido pelo Estado por vinte anos; o monopólio regulatório, que decide quem pode testar e vender; e o monopólio do reembolso, que decide quem recebe e quanto. Nenhum desses três monopólios existiria num mercado genuinamente livre, e a suposta inovação febril do setor é filha direta dessa tripla proteção. Retire os três e veremos rapidamente quem estava curando e quem estava faturando em cima da doença alheia.
A Cabaletta pode até entregar algo real no fim da linha. Torço para que entregue. Mas o espetáculo em si, a peregrinação anual das biotechs até a passarela dos banqueiros para recitar o catecismo da segurança e da escala, é o retrato exato de uma economia que confunde captação de recurso com criação de valor. E enquanto o público engolir o roteiro, o roteiro continuará sendo escrito pelos mesmos figurantes. Cura, quando vier, virá apesar do sistema, não por causa dele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.