A Azul anuncia que seu caixa mais que dobrou em fevereiro, saltando para R$ 2,8 bilhões, e o mercado recebe a notícia com o entusiasmo pavloviano de sempre. Ninguém para pra perguntar o óbvio: como é que uma empresa que há menos de um ano estava de joelhos num tribunal de falências em Nova York, implorando proteção do Chapter 11, agora aparece exibindo cofre gordo como quem nunca deveu um centavo? A resposta, como sempre, está naquilo que o noticiário não mostra.
Vamos ao que se sabe. A Azul eliminou mais de US$ 2,6 bilhões em dívidas e obrigações de leasing durante a reestruturação. Traduza: credores levaram calote disfarçado de "haircut". Acionistas viram suas posições virarem pó com a emissão de mais de um trilhão de novas ações, uma diluição de 90% que transformou quem acreditou na empresa em financiador involuntário da própria ruína. E os R$ 1,7 bilhão em contas a receber que a empresa carrega? São majoritariamente recebíveis de cartão de crédito que a Azul parou de antecipar, ou seja, o caixa engordou não porque a empresa ficou mais saudável, mas porque mudou a forma de contar o dinheiro. É o truque mais velho da contabilidade criativa: mude a torneira de lugar e diga que a piscina encheu.
Mas o capítulo mais instrutivo dessa história é o que acontece nos bastidores de Brasília. O FNAC, aquele fundo federal que ninguém sabe direito pra que serve, liberou até R$ 4 bilhões em linhas de crédito para companhias aéreas via BNDES, com cada empresa podendo acessar até R$ 1,2 bilhão a juros de 6,5% a 7,5% ao ano. Quer dizer, o contribuinte brasileiro, que paga R$ 800 numa passagem de São Paulo a Recife e não tem direito nem a uma mala de mão, financia a juros subsidiados a mesma empresa que acabou de dar calote nos credores e cancelou rotas em 15 cidades. Tem deputado no Mato Grosso pedindo suspensão dos incentivos fiscais porque a Azul sumiu com os voos regionais logo depois de embolsar a redução de ICMS sobre querosene. A lógica é cristalina: pega o incentivo, cancela o voo, fica com o dinheiro. Quem perde é o sujeito de Sinop que agora precisa dirigir 600 quilômetros até Cuiabá para pegar um avião.
O setor aéreo brasileiro virou um oligopólio de manual. Três empresas controlam 99,9% do mercado doméstico, uma concentração que faria corar até os barões do petróleo do século XIX. Latam, Gol e Azul operam num condomínio fechado onde a concorrência é ficção regulatória e a ANAC funciona como síndica complacente. Quando você tem três jogadores controlando a totalidade de um mercado essencial, o que você tem não é capitalismo, é cartel com CNPJ. E o mais perverso: toda vez que uma dessas empresas tropeça nas próprias dívidas, o governo aparece com dinheiro público, crédito subsidiado e incentivo fiscal. O risco é socializado, o lucro é privatizado, e o passageiro continua pagando passagem de primeiro mundo para voar em serviço de terceiro.
Olha, me diz uma coisa: se um padeiro do interior de Minas quebra, ele perde a padaria, a casa e a dignidade. Se uma companhia aérea de capital aberto quebra, ela ganha reestruturação em tribunal americano, perdão de dívida, crédito do BNDES e matéria elogiosa no InfoMoney. A Azul dobrou o caixa, sim. Mas o que dobrou de verdade foi a aposta do contribuinte numa empresa que já provou, repetidamente, que sabe quebrar com elegância e ressuscitar com dinheiro alheio. O caixa de R$ 2,8 bilhões não é sinal de saúde, é sinal de que o paciente encontrou um plano de saúde que nunca nega cobertura: o bolso de quem paga imposto.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.