A semana começou com o calendário econômico global parecendo aquele restaurante vazio na terça-feira à noite, luzes acesas, garçons ociosos e nenhuma novidade para servir. Feriado na Europa, agenda esvaziada nos Estados Unidos, poucos indicadores relevantes, e o mercado fazendo de conta que não há nada para observar. Só que há. Há sempre. E desta vez o que há está a milhares de quilômetros de qualquer bolsa de valores, no Estreito de Ormuz, onde aproximadamente um quinto do petróleo consumido no planeta passa diariamente sob a mira de mísseis, drones e declarações bombásticas de regimes teocráticos.

A ingenuidade de tratar conflito no Irã como "ruído pontual" é a mesma ingenuidade que, por décadas, tratou expansão monetária como fenômeno neutro. Quando a oferta de petróleo se contrai por risco geopolítico, o preço sobe em todos os postos de combustível do mundo, inclusive naqueles onde o motorista nunca ouviu falar de aiatolá. A conta chega disfarçada de reajuste da Petrobras, de alta do frete, de tomate mais caro no sacolão, de inflação que o governo jura que é culpa do clima. Quer dizer, é sempre culpa de alguém distante, nunca de quem decidiu que dependência energética, impressão de moeda e apetite fiscal insaciável podiam conviver pacificamente.

Observe o arranjo: os mesmos governos ocidentais que passaram quinze anos demonizando exploração doméstica de hidrocarbonetos, financiando transição energética a golpes de subsídio e empurrando painel solar goela abaixo do contribuinte, hoje imploram para que a Arábia Saudita abra a torneira. Na prática, trocaram soberania energética por virtude declarada em conferência climática. E agora, quando um regime hostil ameaça o fluxo no Golfo, descobrem que moralidade de Davos não alimenta refinaria. A energia barata sustenta civilização; a energia cara a corrói. Todo resto é conversa para boi dormir em painel patrocinado.

No Brasil, a situação é ainda mais pitoresca. Um país que poderia ser potência energética, com reservas do pré-sal que fariam qualquer xeque babar, insiste em tratar a Petrobras como caixinha de remendo político, em subsidiar combustível para maquiar inflação em ano eleitoral, em sabotar a própria indústria de óleo e gás para agradar ONG estrangeira. Quando o barril sobe por tensão no Oriente Médio, o brasileiro paga duas vezes: uma pelo preço internacional e outra pela incompetência doméstica crônica que transformou a estatal mais lucrativa do planeta em refém de projeto de poder.

Há uma lição que os calendários vazios ensinam melhor do que os cheios: quando não há dados novos para digerir, o mercado volta a olhar para o que realmente importa, e o que realmente importa raramente aparece em planilha de economista de banco. Importa quem controla a energia, quem controla a moeda de reserva, quem tem capacidade militar crível e quem apenas recita mantras sobre cooperação internacional. O resto é teatro. Agenda esvaziada não é ausência de notícia; é oportunidade para ver o que estava escondido atrás das notícias barulhentas da semana anterior.

Então, me diz uma coisa, faz sentido tratar petróleo como commodity igual às outras, ignorar que o mundo ainda funciona a combustão, fingir que risco geopolítico é problema de colunista especializado? Os regimes que dependem do bom humor de terceiros para manter a luz acesa descobrirão, como sempre descobriram ao longo da história, que a dependência é a antessala da humilhação. Quem não produz seu próprio combustível vai, cedo ou tarde, pagar o preço que o inimigo quiser cobrar. E pagar com juros.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.