Olha o calendário da semana e me diz uma coisa: por que quatro comitês de senhores engravatados, espalhados por três continentes, precisam se reunir simultaneamente para decidir quanto custa tomar dinheiro emprestado? A resposta honesta, aquela que nenhum analista de banco vai escrever no boletim matinal, é simples. Porque o dinheiro deixou de ser dinheiro há muito tempo, virou ficha de cassino estatal, e o crupiê tem que combinar a mesa antes da rodada. Copom na quarta, Fed também, BCE e BoJ na sequência, tudo coreografado, tudo solene, tudo absolutamente arbitrário.
Quer dizer, a imprensa econômica brasileira trata cada decisão dessas como se fosse oráculo de Delfos. Vão subir vinte e cinco pontos? Vão manter? O mercado precificou? E ninguém, mas ninguém, faz a pergunta que importa: com que autoridade epistemológica um colegiado de nove pessoas em Brasília, ou doze em Washington, decide o preço de algo que envolve a poupança, o crédito, o investimento e o salário de bilhões de seres humanos? Não decidem. Chutam. Chutam com modelos econométricos sofisticados, com PhDs de Harvard, com gravatas italianas, mas chutam. E o chute deles vira sua prestação do financiamento, seu juro do cheque especial, seu poder de compra na padaria.
O truque mais elegante do arranjo é a linguagem. Eles não dizem "vamos imprimir mais moeda para financiar a gastança do governo". Dizem "ajuste fino da política monetária". Não dizem "vamos confiscar dez por cento do seu salário pela porta dos fundos". Dizem "convergência da inflação à meta". É a tirania que aprendeu a falar em PowerPoint. E o brasileiro, coitado, ainda acha que Selic alta é castigo do Banco Central contra o cidadão, quando na verdade é a fatura tardia da farra fiscal que ninguém quis cortar. Gasta-se trilhão, depois sobe-se juro para conter o estrago, depois reclama-se do juro alto. É o sujeito que entope a privada e xinga o encanador.
Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha com Selic a quinze por cento? O rentista do tesouro, o banco que capta a um custo e empresta a outro, o operador de mesa que vive de arbitragem entre futuro e à vista. Quem perde? O empresário que não consegue financiar capital de giro, o jovem que não compra a primeira casa, o aposentado cuja inflação real come o reajuste oficial. A política monetária moderna é o mecanismo mais sofisticado já inventado para transferir riqueza dos produtores para os intermediários financeiros, e ainda convencer os produtores de que isso é técnico, neutro, científico. Não é. É escolha política travestida de equação.
O detalhe brasileiro, claro, é o feriado no meio. Decisão do Copom espremida entre ponto facultativo e churrasco de fim de semana, para que o cidadão volte na segunda já com a notícia digerida pelos comentaristas amestrados. Funciona. Sempre funcionou. Enquanto o japonês discute se sai do juro zero depois de trinta anos de zumbificação monetária, e o europeu finge que a inflação subiu sozinha por culpa da guerra, e o americano embarca em mais um ciclo de afrouxamento porque ano eleitoral pede generosidade, o brasileiro paga a conta de todos eles ao mesmo tempo, com câmbio, com juro real, com spread bancário entre os mais altos do planeta.
No fim, a semana terminará com manchetes de "mercado reage bem" ou "mercado frustrado", como se mercado fosse uma criatura sentimental, e não a soma de milhões de decisões individuais que esses senhores estão justamente impedindo de acontecer livremente. Há uma palavra antiga para o sistema em que pequenos comitês decidem preços fundamentais para todos os outros, e essa palavra não é capitalismo. Mas dizê-la em voz alta estraga o coquetel.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.