Olha, abrem o calendário econômico da semana e a manchete é sempre a mesma: inflação domina a agenda. IPCA aqui, núcleo ali, índice de atacado acolá, expectativas de mercado fechando a rodada. Apresentam isso como se fosse fenômeno climático, algo que aparece no horizonte como tempestade tropical, imprevisível, inevitável, lamentável. Mentira. Inflação não é tempestade, é decisão. Alguém, em algum gabinete refrigerado, decidiu gastar mais do que arrecada e financiar o buraco com moeda nova. O resto é consequência aritmética disfarçada de mistério econômico.

Quer dizer, a coreografia é sempre idêntica. Na segunda sai um indicador, na terça outro, na quarta o boletim do banco central, e no fim da semana os analistas de paletó comparecem na televisão para dizer que a inflação veio "acima do esperado" ou "dentro da margem". A margem de quem? Esperado por quem? O cidadão que enche o carrinho não tem margem, não tem expectativa, tem boleto. E o boleto não negocia com modelo econométrico. Ele cobra. E quem paga é sempre o mesmo: o assalariado, o aposentado, o pequeno comerciante que repassa preço e perde freguês, o pai de família que vê o churrasco do domingo virar artigo de luxo.

Me diz uma coisa, por que é que a discussão pública nunca sobe um degrau acima do efeito? Falam de feijão, de carne, de combustível, de tarifa de energia, como se cada item tivesse vida própria e resolvesse subir por capricho. Não tem. Cada preço que sobe é eco da mesma fonte: o dinheiro virou abundante porque o Estado precisou financiar sua farra, e tudo que é abundante perde valor. É a lei mais antiga da economia, conhecida desde quando imperadores romanos raspavam as bordas das moedas de prata para fabricar mais moedas com o mesmo metal. Deu certo? Acabou em colapso. A diferença é que hoje a raspagem é digital e o público é convencido a chamar isso de política monetária responsável.

E aí entra a parte que ninguém quer ver, que é a parte invisível. Toda inflação destrói duas coisas ao mesmo tempo: o poder de compra de quem trabalha e a capacidade de cálculo de quem produz. O empresário não sabe mais quanto custa repor o estoque, o investidor não sabe mais qual prazo faz sentido, o trabalhador não sabe mais se o aumento que recebeu é aumento ou ilusão. Vira tudo cassino. E cassino, como se sabe, tem casa, e a casa nunca perde. A casa, neste jogo, é o governo, que arrecada mais imposto sobre preços inflados, paga dívida em moeda corroída e ainda aparece como salvador prometendo combater o monstro que ele mesmo criou. Genial, na pior acepção da palavra.

Tem um detalhe que os comentaristas oficiais nunca tocam, e é o seguinte: a tal "expectativa de inflação" que o mercado projeta não é profecia, é diagnóstico. Quando agente econômico sério passa a esperar preços mais altos, é porque já entendeu que o aparato fiscal não tem freio, que o discurso de austeridade é encenação, e que a impressora vai rodar de novo no momento em que a conta apertar. A expectativa é a forma educada que o mercado encontrou de dizer: a gente sabe o que vocês vão fazer, vocês sempre fazem. E o cidadão comum, que não tem departamento de research, paga a conta da previsibilidade alheia sem nunca ter sido consultado.

Então quando a semana começar com o ritual dos índices, lembrem que aquilo não é meteorologia econômica, é boletim de furto. Cada décimo que sobe num indicador é um pedaço de salário que evaporou, uma poupança que minguou, um sonho de casa própria que recuou mais um ano. Chamar isso de "agenda econômica" é poesia burocrática para esconder o óbvio: o Estado precisa que os preços subam para fingir que sua dívida cabe no orçamento, e o resto do país que se vire. Inflação não domina a agenda da semana. Ela domina a vida de quem não tem como se proteger. E essa, sim, é a única manchete que importa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.