Olha o roteiro da semana. Brasil divulga IPCA, Estados Unidos solta o CPI, China publica seus índices de preços ao consumidor e ao produtor, e no meio dessa rodada de confissões trimestrais aparece o encontro Trump e Xi para dar verniz diplomático ao que é, na essência, uma disputa entre dois impérios que precisam justificar para suas populações por que tudo está mais caro. Calendário econômico não é coisa técnica, é registro cartorial do estrago. Cada número que sai é a fatura de uma decisão política tomada anos atrás, geralmente por alguém que jurava que dessa vez seria diferente.

Comecemos pelo Brasil, que entra na semana com o Banco Central tentando convencer o mercado de que ainda existe ancoragem de expectativas enquanto o Tesouro abre torneira atrás de torneira para sustentar gastança eleitoral disfarçada de programa social. Quer dizer, o IPCA vai subir e a explicação oficial será sempre a mesma novela: alimento, energia, choque externo, fenômeno global, conjuntura. Nenhum boletim do Copom vai admitir o óbvio que qualquer dona de casa entende no caixa do supermercado, que dinheiro impresso sem contrapartida real vira papel mais barato, e papel mais barato compra menos arroz. Ponto. O resto é literatura para justificar emprego de economista de banco.

Nos Estados Unidos a peça é mais sofisticada porque o cenário é maior, mas o enredo é idêntico. O Federal Reserve passou anos jurando que a inflação era transitória, depois que era estrutural, depois que estava sob controle, e agora vai jurar que os números de abril mostram convergência para a meta. Convergência é a palavra preferida de quem precisa ganhar tempo. Enquanto isso, o Tesouro americano rola dívida em volume que faria qualquer país emergente ser rebaixado três vezes, e ninguém comenta porque a impressora ainda funciona. O dia em que parar de funcionar, vão dizer que foi imprevisível. Não é. Está escrito desde sempre que toda expansão de crédito artificial termina em ressaca, e quanto maior a festa, pior a manhã seguinte.

A China entra nessa equação como o personagem mais interessante porque mente com método. Os índices de preços chineses são tratados pelo mercado como se fossem dados, mas são instrumentos de política. Pequim publica o que Pequim quer que o mundo veja, e o que o mundo vê é uma deflação suspeita que serve como pretexto para mais estímulo estatal, mais crédito direcionado, mais socorro a empresas zumbis do setor imobiliário. É a velha jogada de usar número oficial para justificar intervenção que perpetua o problema que o número descreve. Quem acredita em estatística de regime autoritário ou é ingênuo ou está comprando o discurso.

E aí entra Trump e Xi sentando à mesa para discutir tarifa, semicondutor, terras raras, soja, fentanil e tudo o mais que vira moeda de troca quando dois governos precisam mostrar serviço sem entregar nada. Esse encontro não vai resolver guerra comercial nenhuma porque a guerra comercial é útil aos dois lados. Trump precisa do inimigo externo para justificar protecionismo doméstico que enriquece lobby industrial específico ao custo do consumidor americano médio. Xi precisa do inimigo externo para justificar controle interno e desviar atenção do colapso demográfico e imobiliário que está consumindo a economia chinesa por dentro. Ninguém ali está negociando livre comércio. Estão negociando como dividir o prejuízo que ambos criaram com décadas de planejamento central, um disfarçado de capitalismo de Estado e o outro disfarçado de capitalismo de compadrio.

Me diz uma coisa, em que momento dessa semana algum desses atores vai admitir que inflação não é fenômeno meteorológico, que tarifa é imposto pago pelo próprio cidadão que ela finge proteger, e que reunião de cúpula entre dois governos endividados até o pescoço é teatro caro pago com dinheiro alheio? Em momento nenhum. Vai sair número, vai sair declaração, vai sair foto de aperto de mão, e o noticiário vai tratar tudo como se fosse novidade. Não é. É o ciclo de sempre, com figurinos novos, e o pagador da conta continua sendo o mesmo sujeito anônimo que acorda cedo, trabalha, paga imposto e descobre no fim do mês que seu salário comprou menos coisa do que comprava no mês anterior. Calendário econômico não mede economia, mede o tamanho da mentira que o poder ainda consegue sustentar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.