Começa mais uma daquelas semanas em que o noticiário econômico se transforma em liturgia. Analistas de banco vestem o paramento, abrem planilhas como se fossem missais e aguardam, com devoção quase patética, a ata do Copom e o relatório de empregos americano. A balança comercial brasileira entra como entrada, a produção industrial como prato principal, e a temporada de balanços corporativos serve de sobremesa. Tudo isso embalado em um vocabulário técnico que serve menos para esclarecer e mais para intimidar o leigo, que aprendeu a aceitar com humildade que a economia é coisa para iniciados.
Olha, vamos ser honestos sobre o que de fato acontece nessas reuniões. Um punhado de senhores e senhoras se reúne em Brasília e em Washington para decidir, no escurinho de suas planilhas, qual deve ser o preço do bem mais importante de qualquer economia: o dinheiro. Não é o mercado quem descobre essa taxa pela interação espontânea de poupadores e tomadores. São nove pessoas no Copom, doze no Fomc, achando que conseguem calibrar com precisão decimal aquilo que envolve o conhecimento disperso de bilhões de agentes econômicos. A pretensão é tão fatal quanto a do planejador soviético que decidia quantos sapatos a Ucrânia deveria fabricar em 1973. A diferença é que esse usa terno mais caro.
O payroll americano se transformou no equivalente moderno do haruspício romano, aquela prática de ler entranhas de animais para prever o futuro. Cada décimo a mais ou a menos no número de empregos criados faz trilhões em ativos mudarem de mão em segundos, porque o mercado tenta adivinhar o que o Federal Reserve vai fazer baseado no que o Federal Reserve disse que ia olhar. Ninguém produz nada nesse processo. Nenhuma riqueza é criada. É pura especulação sobre a próxima mexida de quem não deveria ter o poder de mexer em nada. E quando der errado, como sempre dá, a culpa será do mercado, nunca de quem distorceu o sinal de preços.
No Brasil, a ata do Copom chega com aquele ritual de sempre. Vão escrever vinte páginas de prosa cifrada para justificar uma decisão que, no fundo, é política. Quem acompanha a trilha do dinheiro entende: juros altos beneficiam quem tem capital alocado em renda fixa, esmagam quem produz, transferem renda do setor produtivo para o setor financeiro e engordam o serviço da dívida pública, que é o verdadeiro cliente preferencial do arranjo. O contribuinte paga a conta duas vezes, uma na inflação que o Banco Central diz combater e outra nos juros que ele cobra para fingir combatê-la. Quer dizer, o bombeiro vendendo extintor para o incêndio que ele mesmo ateou.
A produção industrial brasileira, que sairá no meio dessa algaravia, vai mostrar o de sempre: um país asfixiado por carga tributária estratosférica, regulação labiríntica, custo de capital proibitivo e uma elite política convencida de que o problema é falta de programa de governo, nunca o excesso. Os balanços corporativos, por sua vez, separarão o joio do trigo, mostrando quais empresas conseguem gerar valor real apesar do ambiente hostil e quais sobrevivem apenas pela proximidade com o orçamento público, vivendo de subsídio, BNDES e contratos com ente estatal. A diferença entre uma e outra é a diferença entre criar riqueza e capturá-la.
O que ninguém diz, porque ninguém pode dizer sem perder convite para almoço em São Paulo, é que essa engrenagem inteira existe para sustentar uma ilusão. A ilusão de que existe alguém no comando, de que a economia pode ser pilotada, de que os ciclos podem ser suavizados, de que basta ajustar uma alavanca aqui e outra ali para prosperarmos. A história econômica do último século é o cemitério dessas pretensões. Cada bolha que estoura, cada moeda que derrete, cada recessão que destrói patrimônios é um epitáfio. Mas seguimos lendo as entranhas dos pombos, esperando que dessa vez seja diferente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.