A semana começa com a mesma cena de sempre, repetida há décadas como liturgia: operadores em São Paulo de olho grudado numa planilha que será divulgada em Washington, esperando descobrir quantos americanos foram contratados no mês passado para então decidir se o real sobe, se a bolsa cai, se o juro futuro respira. O payroll, esse boletim mensal do emprego não-agrícola dos Estados Unidos, virou o oráculo profano do capitalismo global, e a agenda brasileira da semana, convenientemente esvaziada, confessa por omissão o que ninguém ousa dizer em alto e bom som: o que se decide aqui importa menos do que o espirro do funcionário do Bureau of Labor Statistics.

Olha, há uma ironia deliciosa nisso. O país que se acha grande, que fala em soberania a cada microfone aberto, que produz comissões parlamentares para discutir a "autonomia nacional", trava a economia inteira na expectativa de um número estrangeiro. E por quê? Porque o tal número move o dólar, e o dólar move tudo: a inflação importada do trigo, do diesel, do remédio, do componente eletrônico, da soja precificada lá fora e vendida aqui dentro. Quando a impressora americana acelera, o pobre brasileiro paga; quando ela freia, o pobre brasileiro paga de outro jeito. O cardápio muda, a conta nunca.

E o que faz o Brasil enquanto isso? Agenda reduzida. Quer dizer, no momento em que o mundo está reprecificando expectativas de juros, fluxo de capital, custo do petróleo e prêmio de risco emergente, nossos formuladores de política tiram, na prática, a semana de folga. Não há indicador relevante, não há leilão decisivo, não há comunicação oficial digna de pauta. É como o capitão que, vendo a tempestade no radar, decide que é uma boa hora para descer ao salão tomar conhaque. A omissão é, ela própria, uma política, e dela alguém se beneficia: o setor financeiro que opera com a volatilidade que o vácuo institucional cria, e o governo que evita comprometer-se publicamente com qualquer número desconfortável.

Vale lembrar uma verdade que os manuais de macroeconomia gastam mil páginas para encobrir: emprego não é produzido por planilha de banco central. Emprego nasce de poupança real, de investimento privado, de empresário disposto a arriscar capital próprio porque acredita que o ambiente jurídico não vai puni-lo por ter dado certo. Quando o payroll americano sobe, não é porque algum gênio de Washington apertou o botão certo; é porque, apesar de tudo, ainda sobra mercado lá. Quando o nosso emprego patina, não é por azar conjuntural; é porque carga tributária recorde, insegurança regulatória crônica e um Estado que consome quase metade do PIB sufocaram a poupança privada antes que ela virasse vaga de trabalho.

Há também o detalhe que ninguém menciona nas mesas de TV: cada vez que o Federal Reserve sinaliza juro mais alto, o Brasil é obrigado a seguir, porque do contrário o capital foge e o câmbio explode. Isto é, a política monetária brasileira é, na prática, terceirizada. Só que pagamos os funcionários daqui, mantemos o teatro de autonomia daqui, e o resultado é o juro real mais alto do planeta financiando um Estado obeso que jamais admitirá ser a causa do próprio problema. Siga o dinheiro e você verá: o brasileiro produtivo trabalha para sustentar quem cobra dele, quem regula ele, quem financia o gasto dele e ainda lhe diz, com ar professoral, que falta "responsabilidade fiscal". Sempre a dele, nunca a do gastador.

Por isso a semana de agenda vazia não é descanso, é diagnóstico. Um país que precisa esperar Washington para saber o que vai acontecer com seu próprio câmbio não tem economia, tem reflexo. E reflexo, todo mundo sabe, é o que sobra quando o organismo já perdeu o controle voluntário das próprias funções. Resta torcer para o número vir benigno, para o Fed ser piedoso, para o dólar não disparar. Torcer, aliás, é o último ato de soberania que ainda nos cabe.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.