Começa mais uma daquelas semanas em que o noticiário econômico transforma calendário burocrático em evento esportivo. Dados de atividade da China, ata da última reunião do Federal Reserve, balanço trimestral da Nvidia e o IBC-Br brasileiro vão pingar nos terminais e, ato contínuo, analistas de banco vão escrever relatórios fingindo que descobriram algo. Vão descobrir o de sempre, ou seja, que a economia real continua refém de três ou quatro mesas onde meia dúzia de burocratas decide o preço do dinheiro do planeta. O resto é coreografia.

Olha, o ritual da ata do Fed é particularmente cômico. Um comitê de doutores reunidos para decidir, no chute fundamentado, qual deve ser a taxa de juros de uma economia de trinta trilhões de dólares, e o mercado inteiro passa duas semanas decifrando virgulazinhas de um documento como se fossem rolos do Mar Morto. Ninguém pergunta o óbvio, que é por que um punhado de pessoas, por mais inteligentes que sejam, deveria saber melhor que centenas de milhões de poupadores e tomadores de crédito qual é o preço correto do capital. O preço do dinheiro deveria emergir da interação real entre quem poupa e quem investe, não de uma sala com café requentado em Washington. Mas reconhecer isso obrigaria a fechar metade dos institutos de pesquisa do hemisfério norte, então seguimos no teatro.

Os dados da China vêm com o charme adicional de virem da China. Quer dizer, ninguém em sã consciência acredita nos números que o Partido Comunista divulga sobre produção industrial, vendas no varejo ou investimento em ativos fixos. São números políticos, calibrados para sustentar a narrativa do crescimento eterno e dissimular o estouro imobiliário que já levou Evergrande e Country Garden ao chão. Mesmo assim, o mercado global vai reagir como se Pequim tivesse aberto os livros. É a velha história do bêbado que perdeu a chave no escuro mas procura embaixo do poste porque é onde tem luz. O dado é ruim, mas é o dado que existe, então vamos fingir que ele significa algo.

A Nvidia é o caso mais sintomático. Uma única empresa, que vende essencialmente um insumo, virou termômetro do humor de toda a bolsa americana e, por contágio, do mundo. Quando o balanço sair, vão extrair conclusões sobre o futuro da inteligência artificial, do consumo global de energia, da geopolítica de semicondutores, do preço do cobre no Chile e do humor do investidor japonês. Tudo isso de um earnings release. O que ninguém vai dizer é que parte dessa concentração obscena de valor numa única empresa é fruto direto de mais de uma década de juros artificialmente baixos que jogaram capital indiscriminadamente em qualquer coisa que cheirasse a tecnologia. Bolha não é palavra educada nos comentários da CNBC, mas é a palavra honesta.

E o IBC-Br, coitado, vem como nota de rodapé. O termômetro de atividade do Banco Central brasileiro vai mostrar o que já se sabe, ou seja, uma economia que cresce na margem porque o governo gasta como se não houvesse amanhã, financia consumo com dívida pública, e celebra cada décimo de PIB como vitória enquanto a dívida bruta avança em direção aos oitenta e poucos por cento do PIB. Cresce hoje quem gasta o capital que deveria virar investimento amanhã, e o IBC-Br vai documentar essa antecipação alegre de pobreza futura com a frieza de um eletrocardiograma. O paciente está agitado, dirão. Pois é. Agitação não é saúde, é febre.

O calendário da semana, portanto, não é calendário econômico. É calendário litúrgico de uma religião cujos sacerdotes são banqueiros centrais, cujos templos são bolsas de valores, e cujos fiéis são os contribuintes que pagam a conta sem nunca serem consultados sobre o dogma. Toda vez que alguém disser que o mercado está "esperando" a ata do Fed, traduza para o português honesto, que é o seguinte, alguns trilhões de dólares estão parados esperando que treze pessoas resolvam o que treze pessoas não deveriam ter o poder de resolver. O resto da semana segue normal.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.