A semana econômica que se anuncia tem o charme peculiar de um julgamento onde o réu também é o juiz. Brasil divulga PIB, IPCA-15 e dados fiscais; os Estados Unidos despejam PCE e revisão do PIB. O calendário é apresentado como se fosse meteorologia, algo que cai do céu, quando na verdade é boletim médico de um paciente cuja doença foi diagnosticada, prescrita e administrada pelo próprio hospital que agora cobra pela internação. Quer dizer, vamos olhar os números com a solenidade que se reserva para coisas inevitáveis, como se a inflação fosse fenômeno climático e não consequência aritmética de decisões tomadas por gente com nome, sobrenome e salário pago pelo contribuinte.
O PIB virá, e virá com a costumeira festividade dos analistas de banco celebrando décimos como se tivessem descoberto o fogo. Olha, crescimento puxado por consumo subsidiado, crédito direcionado e gasto público inchado não é prosperidade, é maquiagem de defunto. A economia que cresce porque o Estado tomou emprestado o dinheiro do amanhã para distribuir hoje não está crescendo, está se endividando com sorriso no rosto. O número que sairá na quinta-feira é a fotografia de uma família que comprou geladeira nova no cartão, brindou com champanhe e ainda não abriu a fatura. A festa é visível, a conta é invisível, e o jornalismo econômico ensina o brasileiro a olhar só para o que se vê.
O IPCA-15 chega como termômetro de febre num paciente que o próprio médico envenenou. Inflação não é fenômeno espontâneo, não brota da terra, não desce dos céus. Toda vez que se imprime dinheiro além do que a economia produz, o preço sobe. É aritmética de primeira série, mas exige que os responsáveis pelo botão da impressora admitam responsabilidade, e isso nenhum burocrata jamais fará. Preferem culpar o supermercado, o produtor, a guerra do outro lado do mundo, o clima, a lua nova; qualquer coisa menos a verdade simples de que gastar mais do que se arrecada e cobrir a diferença com expansão monetária é receita garantida para roubar o poder de compra de quem trabalha.
O dado fiscal, esse vem com aquela cara de quem foi pego com a mão na cumbuca tentando explicar que estava só conferindo. O déficit que se anuncia é fruto de promessas de campanha que ninguém perguntou se cabiam no orçamento, de programas que multiplicam beneficiários mas nunca alcançam os resultados prometidos, de uma máquina pública que cresce como câncer porque cada cargo criado vira voto cativo e cada voto cativo justifica novo cargo. Siga o dinheiro e você não verá hospital novo, escola decente, estrada asfaltada; verá emenda parlamentar, contrato superfaturado, ONG amiga, empresa de fachada e o velho carrossel onde o pagador é sempre o mesmo e o beneficiário muda conforme a estação eleitoral.
Do outro lado do Equador, o PCE americano e a revisão do PIB serão analisados com aquela reverência que se reserva ao Federal Reserve, como se fosse oráculo de Delfos e não comitê de doze pessoas chutando taxa de juros com base em modelos que erraram todas as últimas dez crises. A diferença é que lá a impressora é dólar, e dólar inflacionado se exporta para o mundo inteiro. O brasileiro que reclama do preço da gasolina raramente liga os pontos: parte do que paga é tributo brasileiro, parte é dívida brasileira, e parte é inflação americana exportada via commodities. Três governos, três impressoras, e o sujeito comum carregando a conta dos três.
A semana, portanto, não é semana de dados, é semana de evidência. Os números virão, os comentaristas dirão que vieram melhores ou piores que o esperado, o mercado oscilará dois centavos, e na sexta-feira tudo voltará ao normal: o Estado planejando a próxima rodada de gastos, o Banco Central planejando o próximo discurso sobre paciência, e o cidadão produtivo planejando como pagar o boleto sem perder a dignidade. Existe uma palavra antiga para esse arranjo onde uns produzem e outros consomem o que foi produzido sem consentimento; mas usá-la em público ainda incomoda gente importante. Por enquanto, basta dizer que toda economia que precisa de manchete para parecer saudável já está doente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.