A Califórnia, que já perdeu Tesla para o Texas, Oracle para Tennessee, Palantir para o Colorado e meio Vale do Silício para Miami, acordou em 2026 com uma ideia luminosa para resolver o déficit: cobrar 5% ao ano sobre o patrimônio de quem tem mais de um bilhão de dólares. Não sobre a renda, veja bem, sobre o patrimônio. Todo ano. Em novembro a proposta vai à urna, e os defensores juram, com aquela cara de professor de sociologia que nunca abriu uma folha de pagamento, que desta vez é diferente, desta vez vai funcionar, desta vez os ricos vão pagar e ficar quietos.

Vamos ao que se vê e ao que não se vê, porque é aí que mora a piada. O que se vê é a planilha bonitinha do governo estadual prometendo bilhões em arrecadação nova, escolas reformadas, sem-teto abrigados, trens-bala que desta vez sairão do papel. O que não se vê é que patrimônio bilionário, salvo raras exceções, não é dinheiro parado em conta corrente, é participação acionária em empresas que pagam folha, geram emprego, recolhem imposto sobre cada parafuso vendido. Tributar 5% ao ano de algo ilíquido obriga o sujeito a vender ações para pagar o estado, o que derruba o valor das empresas, o que reduz a base tributária do ano seguinte, o que exige nova alíquota, e assim por diante até o último bilionário apagar a luz no aeroporto de São Francisco.

Siga o dinheiro e a mágica desaparece. Quem propõe esse tipo de imposto não é o eleitor médio de Fresno, é a coalizão de sindicatos do funcionalismo público, ONGs que vivem de subvenção e políticos que precisam financiar promessas eleitorais sem encarar o gasto descontrolado que criou o buraco. O bilionário é o álibi. A vítima real é o californiano de classe média que vai ver o dono da empresa dele mudar a sede para Austin, perder o emprego, e ainda assim continuar pagando o imposto sobre o galão de gasolina mais caro dos Estados Unidos. O rico tem avião, advogado tributarista e endereço em Wyoming. O pobre tem CEP.

O argumento moral, sempre o argumento moral, é que os bilionários precisam pagar a sua parte justa. Justa segundo quem, definida como, calculada em que base? Esses tributos sempre começam mirando o andar de cima e terminam descendo a escada. Foi assim com o imposto de renda federal americano em 1913, vendido como tributo só para os super-ricos com alíquota máxima de 7%, hoje atinge a faxineira porto-riquenha em Queens. A regra é constante: imposto novo nunca volta para casa, só engorda, e a definição de rico vai se ajustando para baixo conforme a fome do leviatã aumenta.

Há ainda o detalhe constitucional, que os entusiastas fingem ignorar. Tributar patrimônio não realizado, ou seja, ganho de capital que ainda não virou dinheiro, é juridicamente esquisito até pelos padrões californianos. Significa cobrar imposto sobre lucro hipotético de ações que podem desabar no ano seguinte. Se a ação cair, o estado devolve o que cobrou? Claro que não. Heads I win, tails you lose, com o contribuinte sempre na ponta perdedora da moeda. É a velha alquimia estatal: transformar o risco do investidor em receita garantida do governo, e o lucro do governo em prejuízo do investidor.

O resultado previsível dessa novela é o de sempre. Se aprovado, o imposto entrega menos do que promete, acelera a fuga de capital que já está em curso, força um novo aumento dois anos depois para cobrir o rombo que ele mesmo criou, e os mesmos políticos que arquitetaram a confusão vão à televisão explicar, com cara de espanto, que a culpa é da ganância dos ricos que se recusaram a colaborar. A Califórnia já foi o sonho americano. Está virando o aviso americano, aquele cartaz na entrada da estrada dizendo cuidado, foi por aqui que começou. Quem não aprende com o vizinho que quebrou, quebra também, só que com sotaque diferente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.