A Camex aprovou mais um pacote do mesmo cardápio requentado de sempre, vestido com nome novo para parecer novidade. "Defesa comercial" e "incentivo a exportações" são duas expressões que, traduzidas do burocratês para o português, querem dizer a mesma coisa: tarifa maior na importação para proteger empresário que não quer melhorar, e subsídio disfarçado para empresário que não quer arriscar. O resto da população, que não tem assento na Esplanada e nem advogado em Brasília, paga a conta sem nem saber que assinou o boleto.

Olha, toda vez que um governo anuncia "defesa comercial", convém perguntar de quem ele está defendendo o quê. Não é o consumidor, porque o consumidor passa a pagar mais caro pelo produto importado, e mais caro ainda pelo similar nacional, que aproveita a barreira para reajustar o preço sem cerimônia. Não é o trabalhador, porque o emprego "salvo" no setor protegido é o emprego destruído nos setores que dependiam daquele insumo barato para existir. O beneficiado é sempre o mesmo: o industrial bem relacionado, com lobby em Brasília, que descobriu que é mais barato contratar despachante do que engenheiro de produtividade.

O "incentivo às exportações" segue a mesma lógica, só que invertida. Em vez de cobrar do consumidor lá fora, cobra do contribuinte aqui dentro. Você financia, via imposto, o desconto que o exportador dá ao chinês ou ao americano para vender o produto mais barato no exterior do que vende no Brasil. Quer dizer, o sujeito que paga IPVA, IPTU e ICMS está bancando o preço camarada que o estrangeiro paga no porto de Xangai. E ainda chamam isso de "estratégia de inserção internacional". Estratégia para quem, exatamente?

Há séculos se sabe que protecionismo enriquece um setor visível e empobrece a economia inteira de modo invisível. A fábrica preservada pelo tarifaço aparece no telejornal; as cinco mil pequenas empresas que fecharam porque o insumo ficou caro não aparecem em lugar nenhum, porque cadáver de empresa não dá entrevista. Mas a aritmética é cruel: o que se gasta para sustentar a poltrona de Fulano sai do bolso de mil Beltranos que jamais saberão o nome dele. A política comercial brasileira é um grande jogo de mágica em que a moeda some da carteira do povo e reaparece na conta do amigo do rei.

E a parte mais saborosa é o vocabulário. "Defesa comercial" pressupõe um ataque, como se o navio cargueiro chinês fosse uma fragata de guerra atracando em Santos. "Incentivo" pressupõe estímulo a algo que não aconteceria sozinho, ou seja, a confissão tácita de que o exportador brasileiro não compete sem muleta estatal. Se a indústria precisa de tarifa para sobreviver e de subsídio para vender, não estamos diante de uma economia, estamos diante de um asilo subsidiado com placa de fábrica na fachada. E quem mantém o asilo, claro, é você.

O próximo capítulo é previsível, porque já foi escrito mil vezes. A indústria protegida reajusta preços, a inflação encosta nos alimentos e nos eletrodomésticos, o Banco Central sobe o juro para "combater" essa inflação que o próprio governo fabricou, o crédito encarece, o pequeno empresário quebra, o desemprego sobe, e aí vem o pacote seguinte de "estímulo" para resolver o problema criado pelo pacote anterior. É a velha espiral: cada intervenção exige a próxima, e cada próxima é mais cara que a anterior. No fim, o único que prospera é o despachante.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.