A cena se repete com a previsibilidade de tragédia grega. O rendimento dos Treasuries de dez anos sobe, o investidor olha para a planilha, refaz o cálculo do valor presente daquele lucro que a Nvidia, a Microsoft e a turba de startups de inteligência artificial prometem entregar lá em 2032, e percebe que o número não fecha mais. As ações despencam. A imprensa econômica trata como se fosse novidade, como se ninguém pudesse ter previsto que descontar fluxo de caixa futuro a uma taxa maior produz valor presente menor. Isso se aprende no primeiro mês de qualquer curso decente de finanças, mas exige uma coragem que falta ao analista de banco, que é a coragem de dizer em alto e bom som que o rei está nu.

Olha, o que está acontecendo no mercado americano não é uma anomalia técnica nem um soluço passageiro. É a consequência inevitável de quinze anos de juros artificialmente esmagados pelo Federal Reserve, que transformou o dinheiro em mercadoria gratuita e, ao fazer isso, autorizou a humanidade inteira a financiar qualquer ideia, qualquer promessa, qualquer firma que tivesse a palavra "tech" no nome. Quando o crédito é falso, o boom é falso, e quando o boom é falso, o bust é certo. A bolha da inteligência artificial não nasceu do gênio inventivo do Vale do Silício, nasceu da impressora monetária de Jerome Powell e seus antecessores. A diferença entre uma empresa que vale trilhões e uma empresa que vale bilhões, hoje, mora inteira no denominador da fórmula de desconto, e o denominador é o juro.

Quer dizer, dá para entender o desespero de Wall Street. Tem fundo de pensão que jogou a aposentadoria do professor aposentado de Ohio em sete ações de tecnologia que prometem reinventar tudo, da medicina à publicidade. Quando o Tesouro americano paga cinco por cento garantidos, sem risco, sem narrativa, sem PowerPoint sobre singularidade, o investidor racional faz a conta básica: por que continuar segurando papel de empresa que talvez, num cenário otimista, num futuro nebuloso, talvez entregue retorno superior, se posso receber juros polpudos sem mover um músculo? A resposta sincera é que ninguém continuaria. A resposta de mercado é que ninguém está continuando.

E aí entra a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Siga o dinheiro. Quem ganhou com a bolha foi quem entrou cedo, vendeu nos picos e saiu pela porta dos fundos antes do garçom trazer a conta. Quem está pagando agora é o pequeno investidor que comprou o ETF de tecnologia depois de ler na revista que inteligência artificial é o futuro, é o trabalhador que confiou no fundo previdenciário, é o jovem que jogou as economias da primeira CLT em ações da moda. O lucro é privatizado em poucas mãos, o prejuízo é socializado entre milhões. E quando a crise chegar de verdade, vão pedir socorro ao mesmo banco central que criou o problema, num ciclo que já vimos em 2008, em 2020, e que vamos ver de novo até que alguém tenha a coragem de desligar a impressora de forma permanente.

O que não se vê neste momento é mais importante do que o que se vê. Vê-se a queda das ações de inteligência artificial nas manchetes. Não se vê o pequeno empresário americano que não consegue refinanciar a dívida da padaria porque o crédito secou. Não se vê o jovem casal que adiou a compra da casa porque a hipoteca disparou. Não se vê o capital que foi alocado em projetos absurdos durante a era do dinheiro grátis, capital que poderia ter financiado fábricas, infraestrutura, produtividade real, mas foi torrado em startups que entregam chatbot e prometem revolucionar a humanidade. Esse capital queimado não volta. Essa riqueza destruída não retorna. A festa termina, mas a ressaca dura uma geração.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita seriamente que existe almoço grátis em economia? Que dá para imprimir trilhões sem consequência? Que dá para suprimir juros por uma década e meia sem que a alocação de capital fique completamente deformada? O mercado está fazendo agora o trabalho doloroso que o banco central deveria ter feito gradualmente, e que escolheu não fazer por covardia política. A correção é violenta porque foi adiada. E a próxima lição, infelizmente, virá com sangue, suor e poupança evaporada de quem menos pode perder. Quem semeia dinheiro fabricado colhe pobreza real.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.