O Fundo Monetário Internacional publicou seu World Economic Outlook de abril e fez o que faz de melhor: admitir, com seis meses de atraso e linguagem asséptica, aquilo que qualquer comerciante de esquina já sabia. O crescimento global foi rebaixado para 3,1% em 2026, a inflação subiu para 4,4%, o comércio mundial despencou de 5,1% para 2,8%, e o próprio economista-chefe do Fundo reconheceu que a realidade está "entre o cenário-base e o adverso". Traduzindo do burocratês: estamos mais perto do buraco do que do chão firme, mas ninguém quer ser o primeiro a gritar "fogo" num teatro lotado de ministros de Finanças.
Olha, a narrativa da "resiliência global" que o Financial Times coloca como pergunta já contém a própria resposta. Resiliência a quê, exatamente? A décadas de juros artificialmente baixos que inflaram bolhas em cada canto do planeta? A governos que gastaram como se a impressora de dinheiro fosse fonte de riqueza e não de confisco silencioso? A um sistema de comércio internacional que foi paulatinamente envenenado por tarifas, retaliações e caprichos geopolíticos? A economia mundial não "resistiu ao caos", ela foi anestesiada por estímulos monetários e fiscais que empurraram a dor para frente. O que o FMI chama de disrupção é simplesmente a anestesia perdendo efeito.
Me diz uma coisa: quando o Estreito de Ormuz fecha e o barril de petróleo ameaça bater 125 dólares, quem paga a conta? Não é o burocrata de Genebra que redige relatórios em papel couché. É o caminhoneiro brasileiro que abastece o diesel, é a dona de casa que vê o gás de cozinha subir pela terceira vez no ano, é o pequeno empresário que não consegue repassar o custo porque o consumidor já está no limite. O FMI projeta que as economias emergentes importadoras de commodities, justamente as mais pobres, são as que mais sofrem. Que surpresa. Toda vez que os grandes jogadores resolvem suas disputas geopolíticas, a conta vai parar na mesa de quem não foi convidado para o jantar. Isso não é efeito colateral; é o mecanismo funcionando exatamente como foi desenhado.
Quer dizer, o mesmo Fundo que modelou cenários com tarifas americanas de 30 pontos percentuais sobre produtos chineses e 10 pontos sobre japoneses, europeus e emergentes asiáticos, calcula um impacto de menos 0,3% no PIB global em 2026. Parece pouco, não parece? Mas olhe o detalhe que ninguém destaca: os emergentes, excluindo a China, perdem 1,9 ponto percentual, quase o dobro das economias avançadas. O livre comércio, aquele princípio que enriqueceu o Ocidente nos últimos dois séculos, está sendo desmontado peça por peça por políticos que acham que protecionismo é patriotismo. Não é. Protecionismo é um imposto disfarçado de bandeira nacional, cobrado do próprio povo para beneficiar meia dúzia de setores com bons lobistas. Toda tarifa é um imposto sobre o consumidor doméstico; o estrangeiro é só o pretexto.
O mais revelador do relatório, porém, não está nos números. Está na confissão implícita de que os instrumentos tradicionais de política econômica, aqueles que os tecnocratas vendem como salvação, estão esgotados. Juros já subiram e a inflação não cedeu como prometido. Gastos públicos explodiram e o crescimento não veio. Pacotes de estímulo se multiplicaram e a produtividade continuou estagnada. Cada intervenção gerou uma distorção, cada distorção exigiu nova intervenção, e agora estamos num labirinto onde cada saída aparente é a entrada de um novo corredor sem fim. O FMI pede "coordenação multilateral" e "políticas prudentes", o que na prática significa: façam alguma coisa, porque nós não sabemos mais o que recomendar.
A pergunta do Financial Times, se a resiliência global pode superar a disrupção, parte de uma premissa falsa. Não existe resiliência onde há fragilidade estrutural maquiada de estabilidade. O que existiu foi uma ilusão mantida por crédito barato, gastos insustentáveis e a fé quase religiosa de que burocratas internacionais podem pilotar uma economia de 100 trilhões de dólares melhor do que bilhões de pessoas tomando suas próprias decisões. O castelo de cartas não está tremendo por causa do vento; está tremendo porque foi construído de cartas.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.