O governo canadense apareceu esta semana sinalizando disposição para aprofundar a integração comercial com Estados Unidos e México em setores estratégicos, e a imprensa especializada tratou o anúncio como gesto de maturidade diplomática. Olha, é curioso como o vocabulário oficial sempre transforma necessidade em virtude. Quem precisa anunciar publicamente que vai depender mais de seus dois maiores parceiros não está exibindo poder de barganha, está pedindo socorro em tom de comunicado.

Setores estratégicos, na linguagem do burocrata, é o nome bonito que se dá às áreas onde o mercado livre já decidiu há tempos quem ganha e quem perde, mas onde o governo insiste em fingir que ainda manda. Energia, minerais críticos, automóveis, semicondutores, agricultura subsidiada. Em cada um desses cantos, o que existe não é livre comércio, é um arranjo de cartel intergovernamental no qual lobistas dos três países se sentam em Ottawa, Washington e Cidade do México para decidir quanto cada um pode produzir, vender e a que preço. O consumidor, esse personagem que paga a conta de tudo, nunca é convidado para a reunião.

Vale prestar atenção em quem ganha com o aprofundamento dessa integração desenhada por comitê. Não é o pequeno produtor canadense de gado, que vai continuar sufocado pelo regime de cotas leiteiras erguido para proteger meia dúzia de cooperativas politicamente bem relacionadas em Quebec. Não é o consumidor mexicano, que paga caro pelo combustível porque a Pemex é monopólio estatal sagrado. Não é o operário americano de Ohio, que assistiu sua fábrica migrar para Monterrey sob a bênção de tratados que prometiam o paraíso. Quem ganha são os escritórios de advocacia de comércio internacional, as consultorias que vivem de explicar regulação a quem fabrica regulação, e o sindicato dos burocratas trilaterais que agora terá novas reuniões pagas com nossos impostos para continuar fazendo o que sempre fizeram.

O que ninguém está dizendo é que o Canadá chega a essa mesa com o caixa furado, produtividade estagnada há mais de uma década, setor imobiliário viciado em capital chinês e uma classe política que confundiu impressora monetária com política industrial. A integração não é escolha estratégica, é tentativa desesperada de pegar carona no dinamismo americano sem ter que enfrentar os próprios sindicatos, os próprios subsídios, a própria covardia regulatória. É como o vizinho endividado que propõe ao banqueiro uma "parceria estratégica" quando o que ele quer mesmo é um empréstimo a juros menores.

Existe ainda o argumento geopolítico, repetido em coro pela imprensa séria, de que o bloco norte-americano precisa se fortalecer diante da China. O argumento tem um fundo de verdade, mas omite o detalhe inconveniente. A melhor defesa contra o adversário externo nunca foi fechar mais fronteiras internas com regulamentação, foi abrir o mercado interno, deixar o capital fluir, deixar o preço sinalizar onde investir. Tudo o mais é arranjo político fantasiado de estratégia. Quando o governo te diz que vai proteger empregos com tratado, está te avisando que vai destruí-los com mais um andar de burocracia.

No fim das contas, a única integração que funciona é a que acontece quando dois empresários se encontram, fecham negócio e nenhum funcionário público fica sabendo. Tudo o que precisa de cúpula trilateral, comunicado conjunto e foto na escadaria é sintoma, não solução. Liberdade comercial verdadeira não se anuncia, se exerce; o que se anuncia em palanque é sempre, sem exceção, novo capítulo da velha pilhagem disfarçada de progresso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.