Toronto teve mais um daqueles dias em que o telejornal econômico abre com sorrisos largos e gráficos verdes. O S&P/TSX subiu 1,04%, energia puxando, mineração acompanhando, bancos pegando carona. A manchete vende a impressão de que o Canadá vai bem, de que a economia está aquecida, de que o cidadão de Vancouver e o operário de Hamilton têm motivo para brindar. Olha, antes de brindar, vale perguntar uma coisa simples: alta nominal de ações em moeda que perde poder de compra mês após mês é exatamente o quê? É riqueza nova ou é régua encolhendo?
Porque o detalhe que os comentaristas de banco evitam mencionar é que o índice sobe num ambiente onde o Banco do Canadá vem operando juros em patamares historicamente baixos para os padrões do país, com balanço inflado depois de anos de expansão monetária pandêmica que nunca foi de fato revertida. Quando se joga dinheiro fácil no sistema, esse dinheiro precisa pousar em algum lugar. Pousa em ações, em imóveis de Toronto que custam dois milhões de dólares canadenses por uma casa que em qualquer país normal valeria um terço disso, pousa em fundos que cobram taxa de administração para comprar o mesmo índice que qualquer um compra sozinho. A alta da bolsa, nesse arranjo, não é sinal de produção crescendo; é sinal de liquidez procurando refúgio.
E quem ganha com isso? Siga o dinheiro, sempre vale o exercício. Ganham os grandes acionistas dos bancos canadenses, aquele clube fechado de cinco instituições que praticamente monopoliza o crédito do país sob a benção regulatória de Ottawa. Ganham as empresas de energia que tiveram o setor petrolífero estrangulado por anos de regulação verde militante e agora colhem margens fartas porque a oferta foi artificialmente comprimida. Ganham os gestores de fundos, ganham os corretores, ganha todo mundo que está dentro do cassino. Quem fica de fora? O canadense médio, que vê a casa própria virar miragem, o salário corroído, o imposto subir e ainda escuta no jornal que a economia vai bem porque a bolsa fechou no azul.
O truque é antigo e funciona porque é confortável. Confunde-se preço de ativo com criação de riqueza. Riqueza de verdade é fábrica nova, é poço produzindo, é trigo colhido, é casa construída, é tecnologia que resolve problema real. Papel subindo de preço porque o Banco Central afrouxou ou porque o Tesouro anunciou mais gasto não é nada disso. É contabilidade emocional. É a janela quebrada glorificada: o governo arrebenta o vidro, contrata o vidraceiro, e os jornais aplaudem o vidraceiro empregado sem perguntar de onde saiu o dinheiro nem o que aquele dinheiro deixou de produzir em outro lugar. O que se vê é o pregão verde. O que não se vê é o jovem casal de Calgary que desistiu de ter filho porque o aluguel comeu o orçamento.
Há ainda o componente cultural, e aqui está o nó que poucos têm coragem de desatar. O Canadá vendeu a alma para um modelo de Estado tutelar que precisa imprimir, gastar, regular e taxar em volumes cada vez maiores para sustentar a ficção de que o cidadão é frágil e o governo é sábio. A bolsa em alta é o anestésico desse arranjo. Enquanto o índice sobe, ninguém pergunta por que o PIB per capita real estagnou há quase uma década, por que a produtividade despencou frente aos vizinhos do sul, por que profissionais qualificados estão fazendo as malas. A festa do papel serve para mascarar a paralisia da economia real, e serve bem.
Um dia o anestésico passa. Sempre passa. Toda expansão artificial de crédito termina em correção dolorosa, e quanto mais se atrasa o ajuste, pior ele é. O canadense que hoje aplaude o índice subindo 1,04% vai descobrir, talvez não amanhã, talvez não no ano que vem, mas vai descobrir, que comemorou o próprio empobrecimento contado em moeda derretida. Bolsa em alta com economia real travada não é vitória, é diagnóstico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.