A cena tem algo de tragicômico. O Canadá, encurralado pelo tarifaço americano que reacendeu sob a segunda temporada de Donald Trump, sai correndo pela Europa oferecendo reatores CANDU à Polônia como quem oferece enciclopédia de porta em porta. O governo Carney manda ministros a Varsóvia com maletas cheias de brochuras técnicas, promessas de transferência de tecnologia e a velha ladainha do parceiro confiável. Curioso como a confiabilidade vira argumento de vendas justamente quando o cliente principal fecha a porta na cara.
Olha, ninguém que acompanhe minimamente o jogo geopolítico se surpreende. O Canadá construiu décadas de prosperidade artificial sobre a premissa de que os Estados Unidos comprariam qualquer coisa que atravessasse a fronteira em Windsor. Petróleo, alumínio, madeira, autopeças, tudo fluía num arranjo que os canadenses chamavam de livre comércio e os americanos, cada vez mais, chamam de dependência unilateral. Bastou Washington cobrar a fatura para Ottawa descobrir, aos quarenta e cinco do segundo tempo, que diversificação de mercado não é slogan de campanha, é sobrevivência.
E aqui a coisa fica interessante para quem sabe seguir o dinheiro. A tecnologia CANDU é estatal, foi paga com décadas de imposto do contribuinte canadense via Atomic Energy of Canada Limited, depois privatizada às pressas para a SNC-Lavalin numa daquelas operações em que o público banca o desenvolvimento e o privado colhe o dividendo. Agora o mesmo governo que sustentou o projeto com dinheiro alheio vira garoto propaganda internacional da empresa, negociando de Estado para Estado, oferecendo garantias soberanas, financiamento subsidiado, tudo aquilo que a cartilha oficial jura ser livre mercado. É o capitalismo de compadrio se vestindo de diplomacia energética.
A Polônia, por sua vez, não é ingênua. Varsóvia já tem contrato assinado com a Westinghouse americana para sua primeira usina em Pomerânia, negocia com os sul coreanos da KHNP para um segundo sítio, e agora recebe a comitiva canadense sabendo perfeitamente que quem chega desesperado paga o preço do desespero. Os poloneses aprenderam com séculos de partilhas e ocupações que quando três potências competem pelo seu quintal, a inteligência está em fazer todas oferecerem o dobro. É a lei do leilão aplicada com sotaque eslavo, e os canadenses vão descobrir que o comprador com opções é o pior tipo de comprador para quem precisa vender.
O pano de fundo, este sim, é o que nenhum ministro dirá em coletiva. A ordem comercial que sustentou o pós guerra fria está se esfarelando em tempo real, e os países que apostaram todas as fichas no acesso ao consumidor americano acordam agora percebendo que construíram suas economias sobre areia. O Canadá é apenas o primeiro caso visível porque tem noventa por cento das exportações concentradas num único mercado, mas Alemanha, México, Coreia, todos estão fazendo a mesma conta angustiada. E o remédio, quando finalmente aplicado, sempre vem tarde e sempre custa mais do que teria custado a prevenção. A lição, que os austríacos ensinam há um século, é que concentração de risco cobrada por planejador estatal é bomba relógio, não estratégia.
Resta o consumidor de sempre pagando a conta de sempre. O contribuinte canadense financiou o CANDU, agora financia a missão de vendas, amanhã financiará os créditos concessionais para tornar a proposta competitiva contra Westinghouse e KHNP. O contribuinte polonês, do outro lado, pagará mais caro pela energia porque o processo de decisão será político, não econômico, e projeto nuclear escolhido por critério diplomático custa sempre o triplo do orçado. No meio, uma pequena aristocracia de executivos, lobistas e diplomatas transforma tarifa comercial em oportunidade pessoal. O mercado livre segue sendo aquela coisa maravilhosa que ninguém, absolutamente ninguém no poder, jamais quis experimentar de verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.