O governo canadense anunciou que iniciou conversas formais com a Saab para comprar o GlobalEye, aeronave de vigilância aérea com radar Erieye ER, sensor que enxerga até quatrocentos e cinquenta quilômetros e detecta desde caça furtivo até traineira pesqueira. O contrato ainda não tem valor divulgado, mas pacotes semelhantes vendidos a Emirados Árabes e Suécia ficaram na casa dos bilhões de dólares por meia dúzia de unidades. Ottawa fala em modernizar o NORAD, em soberania ártica, em ameaça russa derretendo no Polo Norte. O que ninguém fala é que essa conta sai do bolso de quem já paga quase metade do que ganha em tributos federais e provinciais.
Olha, existe um truque antiquíssimo no manual de qualquer governo endividado, e o Canadá está executando à risca. Quando a popularidade interna desmorona, quando o déficit fiscal vira piada internacional, quando a moeda perde força contra o dólar americano de forma constrangedora, o gestor saca da gaveta o velho coelho da segurança nacional. De repente o ártico está em chamas geopolíticas, de repente o céu precisa de olhos suecos, de repente o contribuinte que não conseguia marcar consulta no SUS canadense descobre que sobrou dinheiro para radar de quatrocentos e cinquenta quilômetros. Coincidência maravilhosa, não é?
E aqui entra a parte que o noticiário oficial não conta. A Saab é uma empresa privada na fachada, mas funciona como braço industrial do Estado sueco há décadas, sustentada por exportações negociadas governo a governo, lobby pesado em Bruxelas e em Washington, e contratos que jamais sobreviveriam num mercado realmente livre. Quem ganha com a venda? A Saab, óbvio. Quem ganha com a compra? O complexo de defesa canadense, os intermediários, os escritórios de advocacia especializados em compras governamentais, os consultores de relações públicas que vão vender o pacote como ato heroico de soberania. Quem perde? O sujeito em Winnipeg que acabou de ver o imposto sobre carbono subir de novo.
Quer dizer, o canadense médio acredita piamente que está comprando proteção. Mas o que está comprando, na prática, é uma apólice de seguro contra um risco que o próprio governo inflou para justificar a compra. É o velho ciclo: o Estado cria o medo, o Estado vende a solução, o Estado cobra a fatura, e o cidadão sai do balcão agradecendo. Funciona como aquele vendedor de extintor que primeiro acende o fósforo no tapete. A Rússia precisa estar ameaçando o ártico canadense para que o ártico canadense precise do GlobalEye. Se a Rússia não estiver ameaçando o suficiente, basta um briefing bem temperado para o jornal certo e pronto, o tanque russo já está esquiando para Toronto.
Me diz uma coisa, alguém em sã consciência acredita que radar sueco vai resolver problema de soberania de um país que abriu mão da própria moeda para virar quintal energético americano, que terceirizou a indústria pesada para a China, que importa profissionais qualificados porque sucateou as próprias universidades em altar do politicamente correto? Soberania não se compra em Estocolmo. Soberania se constrói com economia produtiva, moeda forte, fronteiras controladas e instituições que funcionam. Canadá não tem nenhuma das quatro. Tem GlobalEye chegando para fotografar do alto o próprio declínio.
A regra de ouro permanece intacta, e funciona em Ottawa como funcionou em Roma, em Versalhes e em Buenos Aires. Todo regime em crise fiscal compra brinquedo militar caro pouco antes do colapso. É o último ato do teatro, a fantasia de potência vestida sobre o esqueleto da bancarrota. Quando o GlobalEye finalmente decolar dos céus canadenses, ele vai estar filmando, em altíssima resolução, o exato momento em que mais um governo ocidental confundiu gastança com grandeza.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.