Abel De La Espriella, advogado de traficantes reciclado em fenômeno de redes sociais, e Iván Cepeda, senador da esquerda que herdou o espólio político de Gustavo Petro, vão disputar o segundo turno da eleição presidencial colombiana. O primeiro turno revelou o óbvio que ninguém na imprensa internacional quer admitir: o país que era a joia liberal da América Latina, o aluno-modelo das reformas dos anos 90, virou caricatura de si mesmo depois de quatro anos de gestão petrista. Inflação descontrolada, déficit fiscal explodindo, fuga de capital, peso despencando, e uma classe política que responde a tudo isso oferecendo ao eleitor o falso dilema entre o populismo de boteco e o socialismo de cátedra.
Cepeda é a continuidade. Não há mistério aqui, não há nuance, não há aquela conversa de "ele é mais moderado que Petro". O homem passou a carreira inteira defendendo as FARC, relativizando o narcoterrorismo, batendo continência para Havana e Caracas, e agora se apresenta como salvador de uma economia que o próprio grupo dele incendiou. É o roteiro clássico do bolivarianismo: você destrói o país, culpa o capital estrangeiro pela destruição, e oferece como remédio mais da mesma veneno que causou a doença. Quem viu esse filme na Venezuela, na Argentina kirchnerista, na Bolívia de Morales, sabe exatamente como termina. Controle de preços, controle de câmbio, expropriação seletiva, êxodo de empresas, fila no supermercado e discurso patriótico para encobrir o saque.
De La Espriella é a outra face da mesma moeda podre. O sujeito construiu fortuna defendendo gente que ninguém mais queria defender, transformou o escritório em palco midiático, e agora vende a ilusão de que basta um homem forte com discurso duro para resolver o que décadas de captura institucional produziram. É o populismo de direita na sua versão mais crua: nenhuma agenda econômica séria, nenhum compromisso com reforma fiscal, nenhuma palavra sobre cortar o leviatã estatal que devora 30% do PIB colombiano todo ano. Apenas a promessa vaga de "ordem", como se ordem se decretasse, como se a sabedoria acumulada de séculos de tradição liberal pudesse ser substituída por bravata de palanque.
O que ninguém na Colômbia quer discutir é o que está debaixo do tapete. Siga o dinheiro e você encontrará a resposta. O orçamento federal colombiano dobrou em termos reais nas últimas duas décadas, a folha de pagamento do Estado triplicou, os subsídios setoriais se multiplicaram, e o resultado é uma economia que cresce abaixo da média regional, com produtividade estagnada e dependente de remessas de venezuelanos que fugiram do paraíso socialista para mandar dólares de Miami. Nenhum dos dois candidatos do segundo turno propõe tocar nessa estrutura. Ambos prometem mais Estado, mais gasto, mais "investimento público", mais daquilo que produziu exatamente a crise atual.
A falácia que se vê na superfície é que o eleitor colombiano escolherá entre dois projetos de país. A verdade que não se vê é que o projeto de país já foi escolhido há tempos, nos gabinetes do Banco Central, nos ministérios inchados, nas universidades públicas que formaram três gerações de tecnocratas convencidos de que a economia é uma planilha que se ajusta com decreto. O eleitor escolhe apenas o gerente do declínio. E quando uma sociedade aceita que essa é a única escolha possível, é porque já perdeu a batalha cultural antes de chegar à urna. A liberdade econômica não morre por golpe militar; morre por concordância passiva com a gerência compartilhada do confisco.
Resta torcer para que De La Espriella, apesar de tudo, tenha algum instinto de preservação da propriedade privada que o herdeiro de Petro decididamente não tem. Entre o veneno lento e o cianeto, prefere-se o veneno lento, porque ainda dá tempo de procurar o antídoto. Mas que ninguém se iluda: a Colômbia precisa de uma revolução cultural antes de qualquer eleição produzir resultado diferente, e essa revolução não está no boletim de urna. Está, como sempre esteve, na cabeça de quem ainda lê, pensa e ousa discordar do consenso burocrático que se vende como inevitável.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.