A notícia é prosaica na superfície e reveladora por baixo: um canil brasileiro se profissionalizou a ponto de virar referência nacional em criação de cães de alto pedigree, com fila de espera, contrato, acompanhamento genético e preço que assusta quem acha que cachorro é commodity. Pois bem, me diz uma coisa: como foi que uma atividade que o Estado brasileiro nunca soube regular direito, nunca subsidiou decentemente e nunca entendeu conceitualmente virou um dos mercados que mais crescem no país? A resposta incomoda, mas é simples. Cresceu porque o governo, graças a Deus, ainda não descobriu como atrapalhar a sério.
O mercado pet brasileiro movimenta algo perto de setenta bilhões de reais ao ano e segue crescendo em dois dígitos enquanto a economia tradicional engasga com juros, carga tributária e insegurança jurídica. O canil que vira manchete é apenas o topo visível de um iceberg composto por milhares de criadores, veterinários, adestradores, pet shops, fabricantes de ração premium e prestadores de serviço que construíram, do zero, uma cadeia de valor sofisticada baseada em uma coisa que burocrata nenhum entende: reputação. Ninguém ordenou, ninguém planejou, ninguém coordenou em comitê interministerial. O conhecimento está disperso entre o sujeito que sabe cruzar duas linhagens sem perder temperamento, a mulher que reconhece displasia coxofemoral olhando o filhote andar e o cliente que sabe o que procura. Nenhuma planilha de Brasília captura isso, e é por isso mesmo que funciona.
Agora repare no contraste que ninguém quer olhar de frente. O mesmo país que não consegue entregar leite na merenda escolar, que quebra a Petrobras de dentro para fora, que transformou o SUS num balcão de filas e que mantém universidade federal operando com metade da eficiência de qualquer colégio particular sério, esse mesmo país conseguiu, via iniciativa privada pura, produzir canis com padrão internacional, clínicas veterinárias 24 horas em cidade do interior e linhas de ração que rivalizam com as melhores do mundo. Não é mágica. É o que acontece quando pessoas livres, arriscando o próprio dinheiro, competindo pelo próprio cliente e respondendo pela própria reputação, podem tocar seus negócios sem um fiscal em cima a cada decisão. O mercado pet é um laboratório vivo de como o Brasil seria se o Estado tivesse tamanho razoável.
Claro que o corporativismo já está farejando o queijo. Começam a surgir projetos de lei para registrar criador como se fosse conselho de classe, exigir formação técnica obrigatória, criar selo oficial de qualidade, fiscalizar preço de filhote, tabelar honorário veterinário, emitir carteirinha, criar taxa, criar guia, criar imposto com nome bonitinho. Siga o dinheiro: quem ganha com isso não é o cachorro, não é o dono, não é o criador honesto. Ganha o burocrata que cria o cargo para fiscalizar, ganha a associação que cobra filiação compulsória, ganha o político que recebe a contribuição da entidade em troca da regulação. O consumidor paga mais caro e recebe menos, o pequeno criador quebra por não dar conta do custo de compliance, e o grande criador lobista passa a dominar o mercado por via regulatória em vez de mérito. É o velho filme de sempre, apenas com outro figurino.
O canil que virou manchete construiu reputação em décadas de trabalho silencioso, sem selo federal, sem subsídio do BNDES, sem curso pago pelo Sistema S, sem marketing do Sebrae. Construiu do jeito antigo, que é o único que funciona: fazendo bem feito, cobrando o que vale, respondendo pelo produto e deixando o boca a boca trabalhar. Cada cliente satisfeito é um fiscal mais rigoroso do que qualquer auditor do ministério, porque esse cliente fala, posta, indica ou destrói. O mercado pune o mau criador com uma velocidade que nenhuma agência reguladora consegue igualar, e premia o bom criador com uma lealdade que nenhum selo oficial compra. A lição é antiga e continua valendo: onde o Estado se mete menos, a qualidade tende a subir; onde ele se mete mais, a qualidade tende a virar carimbo.
O país que ainda acha que precisa de um ministério para tudo deveria passar uma tarde olhando como o setor pet funciona. Talvez aprendesse que a ordem não precisa ser imposta de cima para existir, que reputação é o selo mais caro e mais honesto que se pode ter, e que deixar as pessoas em paz continua sendo a política pública mais subestimada da história. O cachorro de pedigree é caro porque alguém trabalhou trinta anos para que ele existisse assim. O país é barato porque ninguém trabalhou trinta anos para que ele funcionasse assim.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.