A Canon acaba de admitir o que qualquer leitor atento de balanço já sabia: o lucro operacional anual não chega aos números prometidos, e a casa baixa a régua para 456 bilhões de ienes. O comunicado vem embrulhado naquela prosa corporativa asséptica de sempre, falando em "ambiente desafiador" e "ventos contrários cambiais", como se a moeda japonesa tivesse vontade própria e resolvesse, por capricho, atrapalhar o trimestre. Não é nada disso. É a conta chegando, pontual como sempre, para uma empresa que opera num mundo onde o preço do dinheiro virou ficção decretada por comitê.

Olha, ninguém fabrica câmera, impressora ou equipamento médico de precisão dentro de uma redoma. Canon vende para empresa americana que adia investimento porque o crédito ficou caro depois de anos de juro zero, vende para hospital europeu sufocado por regulação que encarece cada compra, vende para consumidor chinês cuja renda real evapora num mercado imobiliário que foi inflado por planejamento central e agora desinfla na cara de quem comprou apartamento como poupança. Cada uma dessas frentes é filha legítima da mesma mãe: a ideia de que burocrata de banco central, sentado numa sala com ar-condicionado, sabe melhor que milhões de empresários e consumidores qual deve ser a taxa de juros, o câmbio, o ritmo do crédito.

Quer dizer, a parte engraçada é que o ien fraco deveria, em tese, ajudar exportadora japonesa. E ajuda, marginalmente, na linha de receita. Só que o mesmo ien fraco encarece insumo importado, encarece energia, encarece componente eletrônico que vem da Coreia e de Taiwan. O ganho cambial vira miragem contábil, e o que sobra é margem comprimida no meio do balanço. Décadas de impressora monetária ligada no Banco do Japão, taxa negativa, compra de ativo pelo banco central virando rotina, e agora descobrem todos juntos que moeda artificialmente barata não constrói competitividade, constrói dependência. Empresa que precisava se reinventar foi mantida viva no soro do crédito subsidiado, e o continente inteiro envelheceu junto, financeiramente e demograficamente.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que esse ciclo termina sem dor? Toda vez que governo expande crédito artificial, fabrica boom que parece prosperidade e na verdade é alocação errada de capital em escala industrial. Empresa investe em fábrica que não deveria existir, contrata gente que deveria estar em outro setor, lança produto para demanda que só existe enquanto o juro mente. Quando a mentira do juro se desfaz, a contabilidade despenca, e aí vem o release contrito anunciando "revisão para baixo das projeções". Canon não é vítima de azar conjuntural, é sintoma de uma ordem monetária que apodreceu por dentro enquanto economista de banco escrevia relatório elogiando "estímulo coordenado".

E observe o ritual: a ação cai um pouco, o analista do banco grande aparece na televisão dizendo que é "momento de cautela", o consultor recomenda "diversificação", e ninguém aponta o elefante na sala, que é o sistema inteiro de preços distorcidos por intervenção. Acompanhe o dinheiro que sai da Canon nesse processo de ajuste e você vai ver para onde ele vai: paga juro mais alto de dívida que foi contraída quando o crédito era falsamente barato, paga consultoria de reestruturação, paga fundo de hedge que aposta na queda. O capital produtivo encolhe, o capital financeiro engorda, e o trabalhador da fábrica em Oita descobre que reorganização estrutural significa, em japonês corporativo educado, demissão.

O que se vê é o título nos jornais sobre a queda do guidance da Canon. O que não se vê são os milhares de pequenos fornecedores asiáticos que dependem dessa cadeia, os engenheiros que serão remanejados, as cidades industriais que perdem arrecadação, os aposentados japoneses cujos fundos de pensão sangram quietinhos. Tudo isso é considerado dano colateral aceitável pelos arquitetos da política monetária frouxa, gente que nunca produziu uma única câmera na vida mas se acha capaz de calibrar, no decimal, o custo do capital de uma economia inteira. Enquanto houver impressora, haverá ilusão. Enquanto houver ilusão, haverá releases corrigindo para menos. E a fila anda.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.