Vamos ao fato concreto antes que o entusiasmo de Wall Street nos cegue. A Cantor Fitzgerald, casa de análise com tradição de farejar onde o vento sopra, elevou o preço-alvo da USA Rare Earth alegando "execução robusta". Tradução do dialeto financeiro para o português dos mortais: a empresa está cumprindo o cronograma de erguer uma cadeia doméstica de processamento de elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, aqueles metaizinhos que ninguém pronuncia direito mas sem os quais não se fabrica ímã de turbina eólica, motor de carro elétrico nem guia de míssil.
Até aqui, parece uma história americana das antigas. Empresa privada identifica gargalo geopolítico, investe, executa, acionista lucra. Só que basta cutucar a casca do bolo para ver o recheio. A USA Rare Earth não está crescendo no vácuo do livre mercado; está crescendo dentro de uma estufa climatizada construída pelo Pentágono, pelo Department of Energy e pela cruzada bipartidária para "desacoplar da China". Subsídios diretos, contratos garantidos, empréstimos a juros que nenhum mortal consegue, créditos fiscais do Inflation Reduction Act e a promessa implícita de que, se a China resolver inundar o mercado e quebrar os preços, o Tio Sam compra a produção. Não é capitalismo. É um casamento arranjado entre o Tesouro e o portfólio.
Olha, ninguém aqui está dizendo que produzir terras raras em solo americano seja má ideia em termos estratégicos. Depender de um adversário geopolítico para insumo crítico é burrice histórica que poucas civilizações cometeram impunemente. O problema não é o quê, é o como. O preço-alvo que sobe hoje reflete não a sagacidade de empresários enfrentando o mercado, mas a capacidade de lobby de empresários que aprenderam o caminho mais curto entre Washington e o caixa. E esse caminho, todo mundo que paga imposto financia, mesmo o sujeito do interior do Texas que jamais verá um ímã de neodímio na vida.
Quer dizer, o analista da Cantor pode até falar em "execução". Mas execução de quê, exatamente? Execução de plano de negócios concebido em mercado livre, com risco real, com possibilidade de quebrar? Ou execução de cronograma combinado com burocratas que já reservaram o dinheiro do contribuinte caso a coisa azede? São duas coisas opostas, e o mercado, drogado pelo dinheiro fácil, parou de distinguir. Quando o regulador, o cliente, o credor e o avalista são todos o mesmo Estado, o que se chama de empresa é, no máximo, uma estatal disfarçada com gravata de bolsa de valores.
Tem também o pequeno detalhe que ninguém comenta. A razão pela qual a China domina 80% do refino mundial de terras raras não é mistério oriental nem mágica de Partido Comunista. É que processar essas coisas é químico-ambientalmente brutal, e décadas de regulação ambiental americana e europeia tornaram inviável fazer isso em casa. Agora, os mesmos governos que sufocaram a indústria com normas impossíveis querem ressuscitá-la com subsídios bilionários. Estrangula com uma mão, injeta soro com a outra, e cobra aplausos pelas duas operações. É a economia política do absurdo cotidiano, vendida como visão estratégica.
O leitor que aplaude o preço-alvo da Cantor deveria perguntar, antes de comprar a ação, quem está garantindo aquele upside. Se a resposta envolve as três letras DoD, DoE ou IRA, o que ele está comprando não é uma empresa. É um título do Tesouro com volatilidade de small cap e dividendo de propaganda patriótica. E quando a maré virar, e ela sempre vira, a conta não chega para os analistas otimistas de Manhattan. Chega para o sujeito que tira do bolso todo dia 15 sem nunca ter sido consultado se queria ser sócio dessa aventura.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.