A Cantor Fitzgerald, aquela mesma que perdeu dois terços dos funcionários nas torres em 2001 e renasceu como referência de Wall Street, acaba de cortar o preço-alvo da BitGo. O motivo, segundo a casa, é o mercado cripto fraco. Tradução para quem entende como o jogo funciona, a custodiante institucional que se vendeu como ponte entre o mundo do bitcoin e o establishment financeiro está descobrindo, no balanço, que ser ponte entre dois mundos significa balançar quando qualquer um deles treme.

Olha, é preciso ter uma certa coragem cínica para ainda fingir surpresa. Durante anos os entusiastas repetiram em tom messiânico que a infraestrutura cripto institucional era o adulto na sala, o degrau definitivo para a maturidade do setor. Acontece que toda essa estrutura, do ETF de bitcoin à custódia regulada, foi construída em cima da mesma fundação podre que sustentou as bolhas anteriores, juros artificialmente baixos, emissão monetária descontrolada e um apetite por risco que só existe quando o dinheiro do banco central sai pela impressora a custo zero. Quando a torneira aperta, o adulto na sala vira adolescente apavorado igualzinho aos outros.

Quer dizer, o que está sendo precificado no corte de alvo da BitGo não é uma empresa específica, é toda uma tese. A tese de que dava para construir um sistema paralelo de dinheiro duro usando como capital de giro o dinheiro mole do sistema antigo. Não dá. Quem depende de fluxo de comissões sobre um ativo cuja demanda é, em grande parte, alimentada por liquidez emprestada, vai sentir a contração no osso assim que o ciclo virar. E o ciclo sempre vira, porque expansão de crédito artificial não cria riqueza, apenas antecipa o consumo dela e adia a fatura.

Me diz uma coisa, alguém ainda lembra que a promessa original do bitcoin era justamente fugir desse circo? Era ser dinheiro sem banco central, sem custodiante, sem intermediário cobrando pedágio. Hoje temos uma indústria inteira de custodiantes regulados disputando o privilégio de guardar a chave privada do cliente, cobrar taxa pela guarda e ainda implorar por marco regulatório que os proteja da concorrência. A linha que separa o disruptor do disruptado é exatamente a linha que vai do garage startup ao escritório com lobista em Brasília e Washington. A BitGo está apenas pagando o pedágio dessa travessia, e o relatório da Cantor é o recibo.

Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. Quem ganhou a década do bitcoin não foi o usuário libertário sonhando com soberania monetária. Foram os fundos que compraram na largada, os corretores que cobraram spread, os exchanges que cobraram taxa, os custodiantes que cobraram guarda, os reguladores que se aposentaram nos boards das mesmas empresas que regulavam, e os bancos centrais que continuam imprimindo enquanto fingem combater a inflação que eles próprios fabricam. Quem perdeu foi o varejista que comprou no topo de cada ciclo acreditando que desta vez era diferente. Nunca é.

O corte de preço-alvo da BitGo é apenas o primeiro espirro de um resfriado mais longo. Quando o mercado descobre que a infraestrutura institucional cripto custa caro para manter, depende de volume para sobreviver e está exposta ao mesmo ciclo de boom e bust que afeta qualquer outro ativo financiado por crédito barato, a conversa muda. Some-se a isso o detalhe de que vários desses custodiantes estão tecnicamente sentados em montanhas de bitcoin de terceiros e operam com margens apertadas, e você tem o ingrediente clássico de toda crise financeira, alavancagem oculta dentro de instituições que se vendem como seguras. Ressaca de dinheiro fácil não escolhe vítima por ideologia, ela cobra de todo mundo, inclusive de quem jurou estar imune.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.