A Cardiff Oncology, biofarmacêutica de capitalização modesta listada na Nasdaq, soltou nesta semana os resultados intermediários do ensaio clínico de fase 2 do onvansertib combinado a quimioterapia padrão em pacientes com câncer colorretal metastático com mutação KRAS. Os números são daqueles que fazem oncologista levantar a sobrancelha, taxa de resposta objetiva superior à do braço de controle histórico, sobrevida livre de progressão alongada, perfil de segurança administrável. O papel, que vivia esquecido no fundo do balde das small caps de biotech, abriu o pregão saltando dois dígitos percentuais. Tradução para quem não fala mercado, gente real, com dinheiro real, apostou capital próprio em uma molécula que pode adiar a morte de outras pessoas reais. E ganhou.
Repare na coreografia silenciosa que ninguém aplaude. Uma empresa minúscula, com pouco mais de uma centena de funcionários, gastou anos queimando caixa de investidores privados para desenvolver um inibidor de PLK1 que nenhum gigante farmacêutico quis tocar porque o nicho parecia pequeno demais. Investidor anônimo, espalhado em milhares de carteiras, financiou a coisa toda na esperança de retorno. Esse mesmo investidor que os comentaristas de jornal chamam de especulador ganancioso é quem bancou a pesquisa que o ministério da saúde de qualquer país do mundo jamais teria coragem de bancar, porque burocrata não arrisca carreira em molécula que tem oitenta por cento de chance de fracassar na fase 3. O capital privado arrisca. O capital estatal pede parecer técnico, monta comissão, abre consulta pública e, três anos depois, decide formar grupo de trabalho.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. Quando o ensaio dá certo, a Cardiff dispara, os fundos que entraram cedo realizam, parte do lucro volta para financiar o próximo ensaio, e a engrenagem continua girando. Quando o ensaio dá errado, e a maioria dá, o investidor perde tudo e ninguém abre comissão parlamentar para investigar onde foi parar o dinheiro do contribuinte, porque não era do contribuinte. Era de quem assumiu o risco voluntariamente. Compare isso com qualquer programa estatal de pesquisa de bilhões de reais cujos resultados ninguém audita, ninguém cobra, ninguém demite. A diferença entre o mercado e o planejamento central não é eficiência, é responsabilidade. No mercado, quem erra, paga. No Estado, quem erra, promove.
Os profetas do controle costumam dizer que a saúde é cara demais para ficar nas mãos do lucro. Olha, é exatamente o contrário. A saúde é cara demais para ficar nas mãos de quem não tem nada a perder. O preço de um medicamento oncológico americano choca porque embute o custo de dez moléculas que fracassaram para uma chegar até o paciente. Esse custo existe na natureza, não na ganância. Quem finge que dá para abolir o lucro e manter a inovação está pedindo para a inovação parar, e ela para. Pergunte aos países que nacionalizaram a indústria farmacêutica nas décadas passadas quantos blockbusters lançaram. A resposta é constrangedora.
Há ainda o detalhe quase poético de uma empresa que se chama Cardiff Oncology, sediada em San Diego, financiada por capital de risco americano, testando uma molécula em hospitais espalhados por três continentes, para tratar uma mutação genética que mata gente igual em qualquer cor de pele. Isso é cooperação espontânea de milhões de agentes que jamais se reuniram em sala alguma para deliberar sobre o bem comum. É a tal mão que ninguém vê fazendo o que comissão nenhuma jamais faria. E quando dá certo, o paciente em São Paulo, em Berlim ou em Mumbai ganha meses, talvez anos, talvez a vida inteira. Ninguém precisou votar a favor disso. O mercado simplesmente entregou.
Que sirva de lembrete para o ministro de plantão que sonha em recriar o setor farmacêutico nacional via fundo estatal com gestão tripartite. A próxima molécula que salvar a vida do seu eleitor provavelmente vai sair de uma empresa de cem funcionários financiada por gente que ele despreza, pesquisada por cientistas que ele acha pouco patrióticos, e vendida por um preço que ele vai chamar de abusivo. Mas vai funcionar. E é isso, no fim, que importa para quem está deitado na cama do hospital.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.