A Carlsberg abriu 2026 com volumes de venda em alta em todas as regiões onde opera, inclusive nas que deveriam estar congeladas pela guerra do Irã. Quem acompanha a imprensa econômica brasileira sabe que isso não deveria ter acontecido. Tinha conflito militar, tinha disrupção logística, tinha o eterno coro dos analistas de banco prevendo retração de consumo, e mesmo assim a velha cervejaria dinamarquesa fechou o trimestre vendendo mais. Não foi sorte. Foi a aposta deliberada num segmento que o establishment regulatório global tratava como nicho irrelevante até ontem, a cerveja sem álcool, hoje motor de crescimento de uma das maiores companhias de bebidas do mundo.
Olha, há uma ironia deliciosa no fato. Durante anos, governos europeus e brasileiros taxaram, restringiram, demonizaram e regulamentaram o consumo de álcool com a desculpa de cuidar da saúde do cidadão que, coitado, não sabe beber sozinho. O resultado dessa cruzada paternalista? Uma multinacional privada, sem subsídio, sem ministério da bebida sem álcool, sem comitê interministerial de transição alcoólica, identificou a mudança de hábito do consumidor antes do burocrata e simplesmente entregou o produto. A mão que move essa decisão não é a da OMS, não é a da Anvisa, não é a do parlamento europeu. É a mão de milhões de consumidores escolhendo livremente o que querem beber.
Quer dizer, é exatamente o tipo de fenômeno que os planejadores centrais nunca conseguem explicar. Como pode uma empresa, em meio a uma guerra, com cadeias logísticas estressadas, com inflação de insumos, ainda crescer vendendo um produto considerado de luxo por boa parte do planeta? A resposta é simples e os doutores em política pública continuam fingindo não entender. Os preços relativos sinalizaram a mudança, o capital privado se moveu, o produto foi desenvolvido, distribuído e vendido. Nenhum comitê precisou se reunir, nenhuma audiência pública precisou ser convocada, nenhum estudo de impacto regulatório precisou ser produzido. O sistema funcionou porque ninguém tentou planejá-lo.
E aqui vale seguir o dinheiro, como sempre. Enquanto a Carlsberg cresce vendendo bebida sem álcool a um consumidor que decidiu, sozinho, mudar seu padrão de consumo, governos do mundo inteiro continuam destinando bilhões em programas de conscientização, campanhas educativas, subsídios para pesquisa de comportamento e estruturas burocráticas inteiras dedicadas a ensinar o cidadão a beber menos. Pergunte quanto custou ao contribuinte brasileiro a última campanha do Ministério da Saúde sobre consumo responsável de álcool e compare com o resultado mensurável dela. Depois compare com o resultado da Carlsberg, que mudou comportamento de consumo sem cobrar imposto de ninguém, apenas oferecendo o produto certo no momento certo.
A lição que essa notícia carrega para quem souber lê-la atravessa séculos. Toda vez que se tenta substituir o julgamento descentralizado de milhões de consumidores e produtores pelo cálculo centralizado de uma autoridade benevolente, o resultado é mais pobre, mais lento e mais desconectado da realidade. A Carlsberg não cresceu porque o governo dinamarquês decretou que ela cresceria. Cresceu porque foi deixada em paz para descobrir o que o cliente queria e entregar. Quando o assunto é alocar capital, ler tendência de consumo e responder à mudança cultural em tempo real, o mercado livre continua sendo o único sistema que entrega resultado sem precisar quebrar a porta de ninguém.
Me diz uma coisa, então, qual é a moral da história. Uma cervejaria fundada quando Dom Pedro II ainda era moleque sobreviveu a duas guerras mundiais, à proibição americana, ao controle de preços europeu do pós-guerra, à crise do petróleo, à expansão regulatória da União Europeia e agora a uma guerra no Golfo, e continua crescendo. Quantos planos quinquenais, quantas políticas industriais brilhantemente desenhadas, quantos ministérios ousados sobreviveram pelo mesmo período? A resposta, claro, é nenhum. Empresa privada que serve o cliente é eterna. Burocracia que serve a si mesma é descartável. O resto é detalhe.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.