Olha, quando uma gigante global da infraestrutura sai aos quatro ventos celebrando carteira de pedidos recorde enquanto a receita do trimestre vem oscilando entre o morno e o decepcionante, o investidor atento deveria parar, respirar fundo e perguntar de onde vem essa tal carteira. A resposta, quase sempre, está nas mesmas três letras que movem meio mundo dos grandes conglomerados de concessões, construção e energia, a saber, contratos públicos, parcerias público-privadas e obras financiadas por bancos estatais europeus que imprimem compromisso fiscal como quem imprime panfleto de supermercado.
A VINCI não cresceu do nada numa garagem. Ela é filha legítima do casamento entre engenharia pesada e Estado gastador, uma criatura que se nutre de orçamentos plurianuais, planos de recuperação europeus, subsídios verdes disfarçados de transição energética e concessões de aeroporto que o contribuinte paga duas vezes, uma na obra e outra no pedágio. Então, quando dizem que a carteira está recorde, o leitor treinado já sabe o que isso significa, significa que algum político em Bruxelas, Paris ou Lisboa acaba de converter dívida futura em champanhe presente para acionista europeu.
E o detalhe que quase ninguém comenta, a receita mista. Porque carteira é promessa, receita é entrega. Um conglomerado que acumula promessas enquanto tropeça na execução não está vivendo bonança, está vivendo o período dourado que precede o aperto, aquele intervalo em que o backlog cresce porque o dinheiro barato de ontem contratou tudo o que podia, e a execução sofre porque o dinheiro caro de hoje encarece insumo, mão de obra e capital de giro. O que se vê é o anúncio triunfal, o que não se vê é a margem comprimida, o custo financeiro engordando e o prazo de entrega esticando como chiclete barato.
Há ainda o pano de fundo geopolítico que ninguém quer encarar de frente. A Europa vive sob o dogma da transição energética compulsória, da reindustrialização subsidiada e da corrida armamentista rebatizada de autonomia estratégica. Tudo isso se traduz em contratos para as mesmas duas ou três campeãs nacionais que o establishment elegeu décadas atrás. Não é mercado livre escolhendo o melhor executor, é burocrata escolhendo o campeão, e depois vendendo a escolha como sucesso empresarial. A VINCI é ótima no que faz, ninguém nega, mas não confundam competência operacional com competição genuína. O trilho está armado, o vencedor é sempre o mesmo.
Para o investidor brasileiro que olha esse tipo de notícia e pensa em replicar o modelo por aqui, fica o alerta silencioso. O Brasil já tentou fabricar campeões nacionais via BNDES, já viu o filme, já pagou o ingresso, já engoliu o final. Carteira recorde de empresa conectada ao Estado é exatamente o tipo de indicador que parece saúde e é na verdade dependência. Quando o dinheiro público seca, a carteira some. E quando a carteira some, o mercado descobre, com o atraso de sempre, que aquilo nunca foi crescimento genuíno, foi subsídio com gravata.
Então comemorem, se quiserem, o release do trimestre. Mas lembrem-se, construtora que depende de caneta de ministro para crescer não está competindo, está sendo alimentada. E toda criatura alimentada artificialmente eventualmente precisa aprender a caçar sozinha, ou morre quando o tratador decide cortar a ração.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.