O fato é prosaico e por isso mesmo revelador. Uma SPAC, sigla bonita para um veículo que não produz nada, não vende nada e existe unicamente para procurar uma empresa de verdade para engolir, anuncia que pegou cento e cinquenta mil dólares emprestados do próprio patrocinador. Sem garantia. Quer dizer, o cara que montou o brinquedo está agora financiando o brinquedo com a promessa de que, no dia em que a fusão acontecer, ele recebe de volta. É o equivalente financeiro de um restaurante vazio cujo dono empresta dinheiro para o caixa pagar a conta de luz, e depois cobra a si mesmo com juros embutidos no cardápio futuro.

Olha, ninguém em sã consciência emprestaria cento e cinquenta mil dólares, sem garantia, a uma empresa que literalmente não tem atividade econômica. Mas o patrocinador empresta. Por quê? Porque ele não está emprestando, está investindo no próprio circo. Cada dólar injetado nessa fase é um dólar que blinda a estrutura até encontrar o tal "alvo de aquisição", momento em que as ações do patrocinador, compradas a preço simbólico, podem virar fortuna. O empréstimo é fachada contábil; o que está acontecendo é capitalização disfarçada para esticar o relógio da caça.

E aqui está a parte que ninguém na imprensa financeira sublinha: esse modelo só existe porque o regulador permitiu que existisse. A SPAC é uma criatura nascida da engenharia jurídica para driblar as exigências do IPO tradicional. Em vez de a empresa-alvo passar pelo escrutínio público, ela entra pela porta dos fundos, fundindo-se com a casca vazia que já está listada. O investidor de varejo, aquele coitado que compra a ação achando que está participando do próximo Google, vira gado de abate para o patrocinador e para o banco de investimento que estruturou o esquema. A regulação que deveria proteger virou o atalho para contornar a proteção.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. O patrocinador entra com pouco, recebe ações fundadoras a preço de banana, capta dinheiro do público no IPO da SPAC, usa esse dinheiro como isca, e quando finalmente encontra uma empresa disposta a se fundir, dilui o acionista comum, embolsa a participação inflada e sai pela porta da frente aplaudido como visionário. Os cento e cinquenta mil dólares de hoje são gasolina para manter o motor rodando enquanto a presa não aparece. É o paciente comprando o próprio remédio para que o médico continue cobrando a consulta.

O mais cômico é a solenidade com que esses comunicados são divulgados. "Nota promissória não garantida ao patrocinador" soa técnico, respeitável, quase tedioso. Traduzido para o vernáculo: o dono botou a mão no bolso para segurar a fantasia até descobrir alguém para empurrar a fantasia. Toda a indústria financeira moderna depende dessa anestesia semântica, palavras que adormecem o cérebro do leitor para que o cérebro não pergunte a pergunta óbvia, que é por que diabos uma empresa sem operação precisa pedir empréstimo.

O leitor atento já percebeu o padrão. Cada ciclo de juros baixos pariu sua própria modalidade de farsa, e as SPACs foram a flor venenosa do dinheiro fácil pós-pandemia. Agora que a maré baixou, sobraram cascas vazias correndo atrás de alvos cada vez mais duvidosos, sustentadas por empréstimos de patrocinadores que apostam na próxima rodada. É o último ato de uma peça que o público acha que ainda está no segundo. Quando o pano cair, vão dizer que ninguém viu vindo, como sempre dizem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.