O fato é simples e revelador. A Casa dos Ventos, gigante de energia renovável, anunciou a compra de acessos e direitos fundiários da francesa Voltalia em terrenos estratégicos colados ao Complexo do Pecém, no Ceará, para acelerar o desenvolvimento de data centers num polo que o governo federal vendeu ao mundo como o novo eldorado digital da América Latina. Repare bem na palavra que ninguém quer sublinhar, acessos. Não se está comprando usina, não se está comprando tecnologia, não se está comprando know-how. Está se comprando o direito de passar, o direito de plugar, o direito de existir naquele pedaço de chão. E isso, num país normal, custaria o preço de uma escritura no cartório.
Mas aqui não é país normal. Aqui é o reino do alvará, do parecer, da licença ambiental que demora cinco anos, da outorga de energia que depende de quem você conhece em Brasília, da Zona de Processamento de Exportação que só funciona se o conselho deliberativo bater carimbo. Quando o Estado transforma cada metro quadrado de litoral estratégico num privilégio negociável, quem chegou primeiro vira atravessador. A Voltalia não está vendendo terra, está vendendo posição na fila. E a Casa dos Ventos não está comprando ativo, está comprando o lugar dela na fila. O resto é narrativa para o press release.
Siga o dinheiro até o fim do corredor e o desenho aparece inteiro. O Pecém recebeu bilhões em garantias públicas, financiamento subsidiado pelo BNDES, isenção fiscal pela ZPE, energia ofertada em condições que o consumidor residencial paulistano jamais verá na conta de luz. Tudo isso financiado por quem? Pelo cearense que paga ICMS na padaria, pelo brasileiro que paga imposto embutido em cada litro de gasolina, pelo trabalhador formal que assina holerite e financia, sem saber, a infraestrutura que será explorada por meia dúzia de grupos com capacidade jurídica para navegar o pântano regulatório. O lucro será privado, festejado em relatório anual com gráficos verdes. O custo já foi socializado há tempos, diluído na inflação e na carga tributária mais punitiva do hemisfério.
Há um detalhe filosófico que escapa aos analistas de banco quando comentam a operação na CNN Brasil. Num mercado verdadeiramente livre, ninguém pagaria fortunas pelo direito de acessar um terreno vizinho a um porto. Construiria a estrada, ergueria o galpão, ligaria o cabo e pronto. O fato de existir um mercado secundário de acessos é prova cabal de que o primário foi capturado, fechado, loteado por decreto. É a velha história da reserva de mercado vestida com terno verde, falando inglês corporativo e prometendo emprego para o nordestino que continuará ganhando salário mínimo enquanto os servidores rodam algoritmos de inteligência artificial para empresas californianas.
O brasileiro médio engoliu a fábula de que data centers são modernidade e que modernidade é progresso e que progresso é bom. Pois bem. Modernidade construída sobre privilégio regulatório não é progresso, é feudalismo com fibra ótica. Os senhores agora se chamam concessionárias, os vassalos se chamam terceirizados, e o servo da gleba virou estagiário CLT com vale-refeição de vinte e oito reais. A geografia do poder não mudou desde o século quinze, só trocou de vocabulário. Quem entende isso para de aplaudir cada operação bilionária noticiada como vitória nacional e começa a perguntar a pergunta certa, quem pagou a conta que tornou esse bilhão possível.
O Pecém vai virar polo de data centers, sim. Vai gerar empregos, sim, alguns. Vai trazer divisas, talvez. Mas o modelo que está sendo replicado é o mesmo de Manaus dos anos setenta, o mesmo de Camaçari, o mesmo da Sudene, o mesmo de toda tentativa brasileira de fabricar prosperidade por decreto. Funciona enquanto o subsídio dura. No dia em que a torneira fechar, sobra galpão vazio, dívida pública e a nostalgia de uma fantasia que nunca foi sustentável. A Casa dos Ventos sabe disso, a Voltalia sabia disso quando vendeu, e o governo finge não saber porque inauguração rende voto. O contribuinte é o único que segue na inocência de quem acredita que o almoço foi de graça.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.