A CATL anunciou uma bateria que vai de 10% a 98% em seis minutos. Leia de novo, porque a frase merece. Seis minutos. O tempo que você leva para descer do carro, ir ao banheiro do posto, pagar um café requentado e voltar. A autonomia anunciada gira em torno de 800 quilômetros. Para efeito de comparação, é São Paulo a Curitiba e ainda sobra bateria para dar uma volta no quarteirão antes de dormir. A engenharia chinesa entregou, em silêncio industrial, aquilo que burocrata europeu prometia em conferência climática há uma década e nunca cumpriu.
E aqui começa a parte que ninguém da imprensa econômica oficial vai querer comentar. Essa bateria não nasceu de subsídio bem-intencionado, não nasceu de cota de gênero em conselho de inovação, não nasceu de selo verde concedido por ONG financiada com dinheiro público. Nasceu de uma empresa que opera em escala brutal, com cadeia de suprimentos verticalizada, capital privado em volume colossal e a liberdade prática de errar muitas vezes até acertar. O Estado chinês é tudo, menos liberal, ninguém aqui está canonizando Pequim. Mas onde o Partido cala, o capital corre. E quando o capital corre, a tecnologia anda.
Olha o contraste, e ele dói. No mesmo mês em que a CATL apresenta isso, o debate brasileiro sobre veículo elétrico continua girando em torno de qual será a alíquota do imposto de importação, quanto a indústria nacional precisa ser "protegida" de quê, e qual cota de conteúdo local vai ser exigida para o sujeito ter direito de comprar o que quiser com o próprio dinheiro. Quer dizer, a humanidade descobriu como rodar oitocentos quilômetros parando seis minutos para recarregar, e nós aqui debatendo se o consumidor brasileiro merece ou não o privilégio de pagar caro para ter acesso a isso. É um país que confunde política industrial com confisco organizado, e chama o resultado de soberania.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais didática. Toda vez que o governo brasileiro decide "incentivar" um setor, o que ele faz na prática é taxar o consumidor em uma ponta para entregar a diferença, embrulhada em discurso de desenvolvimento, na conta bancária de algum grupo industrial bem relacionado em Brasília. O resultado conhecido é o de sempre, carro caro, tecnologia atrasada, mercado capturado e contribuinte pagando duas vezes, uma no imposto e outra no preço inflado. O que se vê é a fábrica nacional preservada. O que não se vê são os milhões de brasileiros impedidos de comprar um produto melhor e mais barato, os empregos que não foram criados em logística, manutenção, recarga, software embarcado, e a inovação que nunca floresceu porque ninguém precisou competir de verdade.
Existe uma fantasia recorrente, repetida em artigo de jornalão e em palestra de ministro, segundo a qual o desenvolvimento tecnológico nasce de planejamento estatal iluminado. É folclore. O que de fato move a fronteira são empresas com escala, capital paciente e permissão para concorrer. A CATL não pediu autorização para inventar essa bateria, não consultou comitê interministerial, não esperou edital de fomento. Construiu fábrica, queimou capital, errou, refez, e agora está vendendo a próxima geração de mobilidade para o planeta inteiro. Enquanto isso, aqui, o engenheiro brasileiro talentoso continua a fazer planilha de Excel para multinacional ou a montar projeto para conseguir verba do BNDES, que é a mesma coisa.
O recado é desconfortável e por isso mesmo precisa ser dito. Nações que protegem mercado contra concorrência externa não estão defendendo seus trabalhadores, estão hipotecando o futuro deles para sustentar o lucro presente de uma minoria. Cada ano de tarifa protecionista é um ano a mais de atraso tecnológico cobrado da geração seguinte. A China não chegou onde chegou copiando, chegou competindo. E nós continuaremos chegando atrasados enquanto acharmos que o caminho do progresso passa pela mesa de um diretor de autarquia federal. Bateria boa não se decreta. Se constrói, em liberdade, ou não se constrói nunca.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.