A notícia chega como um soco silencioso. A CATL, gigante chinesa de baterias automotivas, plantou em Fujian um centro de testes de quatrocentos e quarenta milhões de dólares, com capacidade para validar células, módulos e packs inteiros num único complexo. Não é fábrica, repare bem. É laboratório. É a infraestrutura que existe antes da infraestrutura, o andaime invisível que sustenta o domínio chinês sobre o coração elétrico do automóvel mundial. Enquanto isso, o brasileiro médio é convidado a se emocionar com a próxima rodada do arcabouço fiscal e com o anúncio pomposo de mais um programa de "indústria verde" que não produz nem parafuso.
Convém olhar para o que se vê e, sobretudo, para o que não se vê. O que se vê é o prédio reluzente, o corte de fita, o comunicado oficial. O que não se vê é a cadeia de decisões que tornou aquele prédio possível: décadas de acumulação de capital, previsibilidade jurídica para o investidor de longo prazo, energia barata, mão de obra técnica formada aos milhões e, principalmente, ausência de um Estado que toma quarenta por cento de cada operação produtiva antes mesmo de o produto existir. A China não construiu a CATL por decreto iluminado, construiu permitindo que ela se construísse, ainda que sob tutela política. O Brasil, por sua vez, asfixia no berço qualquer empresa que ouse crescer sem padrinho em Brasília.
Sigamos o dinheiro, porque ele sempre conta a verdade que o press release esconde. Quatrocentos e quarenta milhões de dólares em um único centro de testes significa que a CATL projeta receita futura suficiente para amortizar esse custo em poucos anos. Significa que existe um mercado consumidor global cativo, montadoras europeias e americanas dependentes, e um governo chinês que, qualquer que seja sua coloração ideológica oficial, entendeu uma coisa simples que nossos burocratas insistem em ignorar: quem domina a tecnologia da bateria dominará o próximo século automotivo, energético e militar. Não é sobre carro elétrico, nunca foi. É sobre quem controla o estoque mundial de lítio refinado, níquel processado e cobalto industrializado.
E o Brasil nesse tabuleiro? Sentado em cima de uma das maiores reservas de lítio do planeta, no Vale do Jequitinhonha, exportando minério bruto a preço de banana e importando bateria pronta a preço de joia. É a velha vocação colonial vestida de modernidade sustentável. Vendemos a pedra, compramos o produto, e ainda batemos palma para o ministro que aparece na televisão dizendo que vamos liderar a transição energética. Liderar com o quê? Com a CIDE, com o Difal, com licenciamento ambiental que leva sete anos, com um BNDES que financia padaria de amigo do governo enquanto o sul-coreano monta planta de bateria na Indonésia em dezoito meses?
Há uma ironia cruel nisso tudo, e ela merece ser nomeada. O mesmo establishment que clama por "soberania nacional" quando se trata de proteger sindicato de servidor público é o que entregou de bandeja a soberania tecnológica real, aquela que se mede em patente registrada, em engenheiro formado, em capital investido por metro quadrado de laboratório. Soberania de verdade não se decreta em plenário, se constrói em galpão. E galpão, no Brasil, virou objeto de luxo, taxado, regulado, fiscalizado e, quando finalmente sai do papel, ainda recebe a visita do MPT para verificar a cor da tinta do extintor.
O centro de testes da CATL é, no fim das contas, um espelho. Mostra o que uma nação faz quando decide produzir, e mostra, por contraste brutal, o que uma nação faz quando decide apenas distribuir. Um país constrói laboratórios de quatrocentos e quarenta milhões. O outro constrói comissões parlamentares de inquérito sobre o preço do arroz. Cada povo tem o futuro que merece, e o nosso, infelizmente, está sendo escrito em mandarim.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.